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Publicação de estudos científicos

Caros leitores, A Journal Health NPEPS (ISSN 2526-1010) é uma revista científica produzida pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNE...

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Vida e carreira do maior editor independente do Brasil

Massao Ohno foi o editor da ruptura e da ousadia, apresentando um trabalho rico e variado durante toda sua trajetória editorial


Não sabe-se ao certo se por sonho ou delírio, mas Massao Ohno (1936-2010) viveu sua vida ansiando o dia em que faria a cidade amanhecer com poemas nos outdoors, ao invés de anúncios de massa de tomate, desodorantes e calcinhas. O filho de imigrantes japoneses talvez não tenha chegado a tanto, mas foi o responsável por lançar toda uma geração de poetas nos anos 1960, conhecidos como Os Novíssimos, além de publicar nomes como Hilda Hilst, Renata Pallottini e Lupe Cotrim.

O trabalho editorial de Ohno foi muito importante e, por isso, é relembrado até hoje – afinal, ser editado por Massao Ohno era como que ganhar um selo de qualidade. Todo poeta queria ser publicado por ele. E, aparentemente, o editor queria publicar todo mundo. É justamente esse trabalho editorial de décadas que uniu poesia (muitas vezes inovadora) e requinte gráfico que pode agora ser visto no livro Massao Ohno, Editor (Ateliê Editorial), do professor e crítico José Armando Pereira da Silva. No volume – que foi editado com o apoio do ex-editor Frederico Jayme Nasser -, ele mostra e analisa as diversas fases do trabalho do editor, que renderam mais de 700 obras publicadas. No volume da Ateliê são apresentados cerca de 200 livros. “Fui mexendo muito no assunto e acabei com um enorme acervo de obras dele. No meu livro dou um enfoque maior para a primeira fase do trabalho dele, que coincide com a geração dos poetas de 1960”, diz Pereira da Silva.

Segundo o autor, a ideia de começar a pesquisar e escrever sobre Massao Ohno surgiu depois de uma homenagem feita para ele em 2004. “Algumas das pessoas presentes ao evento falaram sobre a obra dele mas não pareciam ter muita noção da dimensão, do que realmente tinha significado”, contou. Depois de conversar com o próprio Ohno, já doente mas ainda ativo, José Armando Pereira da Silva começou esse trabalho que durou anos e que agora chega às livrarias. 

Relação poeta e editor


  “Não existe relação poética sem editor. No caso do Massao, no que ele se pôs a editar poetas, acabou agregando um grupo que ficaria conhecido como a geração 60”, afirma Cláudio Willer, que, além de ensaísta e tradutor, é poeta e teve seu primeiro livro publicado por Ohno em 1964. Para ele, a relação entre poeta e editor é dialética, a reputação deles se torna mutualística e, neste caso, não só Massao Ohno se tornou o maior editor independente de sua época, como os artistas viraram referências na área da poesia. 
Segundo Willer, que também é doutor em Literatura pela FFLCH, em uma de suas conversas com Massao, o editor lhe disse: “Quero te publicar”. “Antes disso, essa ideia nem passava pela minha cabeça”, conta o autor. Anotações para um Apocalipse, seu primeiro livro, foi lançado junto com Piazzas, de Roberto Piva, também poeta e grande amigo de Willer. Produzidos como edições de bolso, em preto e branco e sem ilustrações ou efeitos gráficos, o design dos volumes tinha o objetivo de acompanhar seu conteúdo nada convencional. Eles inauguravam a Coleção Maldoror, que não pôde ir para a frente por falta de verba. 
Foi também nessa época que Massao Ohno trabalhou com Hilda Hilst, Lupe Cotrim, Renata Pallottini e Ida Laura, que já tinham certa experiência e não se enquadravam rigorosamente na Geração 60 – desta, além de Willer e Piva, faziam parte nomes como Sérgio Lima, Carlos Felipe Moisés e Décio Bar, entre outros. Nesses trabalhos o editor optou por uma produção mais artística e artesanal, valorizando as obras e evidenciando seu sentimento em relação à profissão que exercia. Como em Sete Cantos do Poeta Para o Anjo, da Hilda, e Livro de Sonetos, da Renata, que tinham designs arrojados e inovadores para a época. 
O final dos anos 1960 e início dos 1970 na carreira de Ohno foi marcado por um afastamento das atividades de editor. Nesse período ele focou em atividades cinematográficas, assumindo a produção executiva de Riacho de Sangue, de Fernando de Barros, e dirigindo o documentário O Novo Nordeste, além de distribuir outros títulos japoneses e brasileiros pouco comerciais. 

Primeiro logotipo usado por Massao Ohno para a Coleção dos Novíssimos – Foto: Reprodução/Ateliê Editorial

“Quando ele voltou a publicar poetas, resolveu fazer um grande lançamento coletivo e pediu para que eu e outros amigos coordenassem o que depois se tornaria a Primeira Feira Paulista de Poesia e Arte”, diz Willer. A feira aconteceu em 1976, no Teatro Municipal, e representava a volta de Massao à cena editorial da época. Segundo o que ele próprio disse em entrevista depois, o evento alcançou os objetivos propostos, incentivando um encontro entre diferentes públicos e correntes artísticas, além de ampliar a visão sobre o que vinha sendo feito em São Paulo, principalmente em termos de criação poética. 
Nos anos 1980, Ohno se associou à Editora Civilização Brasileira, situada no Rio de Janeiro. O acordo veio como uma oportunidade para que o editor pudesse expandir sua área de atuação, e continuasse com produções independentes. A aliança, no entanto, foi curta, e embora Massao tenha publicado algumas coleções no Rio, como Poesia SemprePoesia Hoje e Pôsters-Poemas, ele não reviveu seu sucesso no ambiente carioca. A maior relevância desse período em sua carreira talvez tenha sido os contatos adquiridos, que o levaram a publicar Olga Savary, Marly de Oliveira, Ledo Ivo, entre tantos outros poetas. 
Até o ano 2000 o editor ainda publicou uma quantidade substancial de obras, e embora a poesia predominasse, as demandas de vários outros segmentos aumentaram. A partir daí as publicações ficaram mais escassas mas, de acordo com Willer, sua vontade de editar nunca diminuiu. “Quando ele ainda não sabia sobre o câncer que progredia em seu pulmão, nos encontramos em uma homenagem ao Roberto Piva e eu ouvi novamente dele: ‘Willer, quero te publicar’”.

Sobrecapa do livro Massao Ohno, Editor – Divulgação Ateliê Editorial

Massao Ohno morreu em 2010 deixando mais de 700 livros publicados em sua carreira. “Eu diria que ele foi importante pela capacidade que tinha de ler poesia sem ligar para se ela ofenderia ou não a moral e os bons costumes. O que lhe interessava mais era a arte, por isso também o cuidado com o tratamento gráfico dos livros”, afirma Willer. Dentre as parcerias firmadas por Ohno, é importante destacar os artistas plásticos que ajudaram no design de seus livros. É o caso de Acácio Assunção, João Suzuki, Manabu Mabe, Wesley Duke Lee, Tomie Ohtake, entre outros. É este trabalho gráfico apurado, principalmente, que pode ser visto agora no livro de José Armando Pereira da Silva.

Fonte: Jornal da USP     -     Confira aqui!!

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Redução de danos: promoção da saúde e respeito à vida

Criou-se no Brasil uma falsa polaridade entre a política de redução de danos e uma abordagem pela via da abstinência, na atenção ao usuário de drogas. Essa polaridade em nada contribui para o contínuo fortalecimento da redução de danos e sua proposta conciliadora e democrática, como analisam três especialistas nessa abordagem, que gravaram podcasts para o blog do CEE-Fiocruz – o pesquisador Francisco Inácio Bastos, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz); o psiquiatra e professor Paulo Telles, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (Nepad/Uerj), e a psicóloga Christiane Moema Sampaio, da Associação Brasileira de Redução de Danos (Aborda). Eles participaram do seminário 30 anos de redução de danos no Brasil – Um passado na contramão do presente, em 3/10/2019, que tratou desse conjunto de estratégias que visam reduzir os efeitos negativos do uso de drogas, respeitando-se o direito dos usuários ao cuidado à saúde.
“Em todo mundo há uma relação de complementaridade entre as propostas de abstinência e de redução de danos. Trabalha-se com duas coisas, que convivem de forma integrada”, observa Francisco Inácio, que retornou há pouco de evento no Canadá sobre o tema. “Criou-se aqui uma ideia de que tudo tem que ter uma polaridade direita-esquerda, quando nem sempre as ações têm caráter político. No Canadá não se discute redução de danos como questão de direita e esquerda. Não há interferência do Executivo, do parlamento ou do Judiciário. Isso segue normalmente como atribuição dos profissionais de saúde, respeitada pela sociedade. Quando você politiza, no mau sentido, perde a chance de lidar com as coisas de forma complementar e harmônica”, considera, lembrando que a abstinência é uma forma de reduzir danos. “Uma forma radical, mas não há polaridade, há complementaridade”.
Paulo Telles explica que o conceito de redução de danos começa a ganhar forma quando surgem as infecções associadas ao compartilhamento de seringas e agulhas, primeiro com a hepatite e depois com o HIV/Adis, passando-se a observar que a criminalização e a marginalização do usuário de drogas o afastava de uma possibilidade de prevenção e de atendimento. “A política de redução de danos permitiu que as pessoas tivessem acesso mais facilitado a estruturas de saúde e a insumos adequados para não se infectarem – muitos não tinham esse conhecimento”.
Como assinala Paulo, nem todos os usuários de drogas são sensíveis a estratégias de tratamento muito rígidas. “A redução de danos relativiza isso, ampliando a abordagem restrita à abstinência. Há uma tolerância ao uso [de drogas], e, ao mesmo tempo, com o usuário arriscando-se menos ao usar. Com isso, muito mais pessoas são engajadas em tratamento, com possibilidades de melhora”.
O conceito ampliado de redução de danos, voltado à ideia de cidadania, para além de uma “causa sanitária”, voltada a redução de infecções é enfatizado por Christiane Sampaio. “Encontramos no cenário [de uso de drogas] usuários extremamente vulneráveis, com poucos cuidados, com dificuldade de chegar a qualquer nível de assistência”, aponta, destacando a importância de olhar para a redução de danos sob esse outro paradigma, acatando a não abstinência, se esta não é desejada. “A redução de danos ganha nova configuração, voltando-se à possibilidade de a pessoa fazer mudanças na vida e constituir-se como sujeito, tomado em sua singularidade”. Essa abordagem, conforme assinala Christiane, está presente, hoje na proposta de atenção do SUS.
Se por um lado a psicóloga diz temer que o conceito de redução de danos possa ser “atacado por radicalismos”, por outro, considera que as três décadas de formulação do conceito deverá conferir-lhe uma estabilidade. “Estamos vivendo tempos difíceis, grandes extremos. Esse movimento nos faz temer que esse conceito possa ser atacado pelo radicalismo dos extremos, quando de extremista ele não tem nada. É conciliador, perpassa a subjetividade, é agregador, é democrático. Mas temos um trabalho de 30 anos; o imaginário social foi atravessado por essa lógica”.

Fonte: Centro de Estudos Estratégicos da FIOCRUZ      -     Confira aqui!!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Declaração sobre Ciência Aberta da Associação Canadense de Bibliotecas de Pesquisa (CARL)

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A Associação Canadense de Bibliotecas de Pesquisa (CARL) apoia a educação aberta, tendo em vista os claros benefícios sociais e econômicos que traz para o setor de ensino superior e para a sociedade. A CARL acredita que a missão das universidades é criar e disseminar conhecimento, e que um sistema científico aberto, acessível a todos os leitores, oferece a maneira mais segura de impactar positivamente a vida humana em todas as partes do mundo. A CARL também acredita que abrir todas as formas de ciência a um amplo exame melhora a qualidade, aumenta a responsabilidade e promove a colaboração, o que leva a maior visibilidade e impacto. As práticas de educação aberta se alinham bem com esses princípios, pois reduzem as barreiras à educação, alavancam a tecnologia para melhorar o ensino e o aprendizado e podem resultar em experiências de aprendizado de alta qualidade.
Com sua experiência única, a equipe da biblioteca da universidade e os bibliotecários estão bem posicionados nessa comunidade para serem motivadores da ciência aberta por meio de serviços de resposta para professores e alunos que podem afetar questões de retenção, equidade e vulnerabilidade financeira. No entanto, embora a ciência aberta ofereça àqueles que trabalham em bibliotecas universitárias oportunidades únicas e promissoras de participação no campus, haverá “… um impacto nos modelos de equipe e no que é considerado trabalho de biblioteca, com implicações para todo o departamento e seu relacionamento com o resto da organização. ”
A CARL está comprometida em apoiar a equipe de bibliotecas e bibliotecários no desenvolvimento de seus conhecimentos e habilidades em ciência aberta, à medida que defendem em seus próprios campi uma maior compreensão e reconhecimento deste trabalho e experiência.

Fonte: Universo Aberto (Blog da Biblioteca de Tradução e Documentação da Universidade de Salamanca)   Confira aqui!!