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Publicação de estudos científicos

Caros leitores, A Journal Health NPEPS (ISSN 2526-1010) é uma revista científica produzida pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNE...

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terça-feira, 24 de maio de 2022

Uso da IVERMECTINA contra o COVID: reflexo da pseudociência

 



O nome desta droga rodou em diversos grupos e conversas de WhatsApp e Telegram, mas não somente ali. Prescrições e mesmo a automedicação com ivermectina se multiplicaram durante a pandemia, e ainda há quem defenda seus efeitos na covid com unhas e dentes – ainda que a boa ciência já tenha demonstrado o contrário. Ao investigar a origem de toda esta fama, inclusive argumentando com seus defensores, somos inundados com links para “estudos” e periódicos que, para quem não tem intimidade com os meandros da pesquisa e publicação científica, passam facilmente como provas da eficiência da droga.

Essa reportagem vai abordar mais a fundo dois deles: o site ivmmeta.com e um artigo publicado na revista Cureus. O primeiro caso é mais gritante: o site é anônimo, não faz parte de nenhum periódico científico, além de violar as regras mais básicas da metodologia científica – inclusive com distorção estatística grotesca para quem entende um pouco do assunto. A conclusão forjada, mas propagada inclusive por médicos em vídeos na internet, é de que a chance da ivermectina não funcionar contra a covid é de 1 em 1 trilhão.

Já o segundo caso envolve artigo publicado em uma revista que vem sendo fortemente questionada pelo processo de revisão frágil: os próprios autores indicam os revisores, e o tempo de revisão de poucos dias foge totalmente ao que é considerado por especialistas o mínimo necessário para fazer uma verificação atenta. Os autores também ocultaram conflitos de interesse, como trabalhar para o laboratório que produz ivermectina no Brasil. Mais que a falta de credibilidade, há uma série de inconsistências graves no próprio artigo – e nos dados, como paciente com 119 anos e outro que consta como tendo tomado 6 mil comprimidos da droga – que, mais uma vez, levam ao resultado favorável para a ivermectina na covid, ao contrário do que estudos sérios apontaram.

Saiba como funciona o sistema de publicações científicas na área médica e por que estudos desacreditados sobre a ivermectina continuam servindo de justificativa para uso da droga na covid:

REVISÃO POR PARES
E por que elas são tão importantes? “O processo científico precisa de organização, protocolo. É só a partir do registro que é possível reproduzir uma pesquisa e confirmar aquela informação, por exemplo. As publicações, por sua vez, geram outras perguntas e novas pesquisas. Os estudos e seus resultados precisam ser públicos”, explica Bruno Caramelli, médico cardiologista e professor da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).
Depois, é preciso verificar se o estudo foi duplo cego, quando nem a pessoa que recebeu a intervenção, nem quem a avalia sabem se ela recebeu o medicamento ou o placebo. O cegamento serve para evitar ou diminuir a atribuição de resultados a uma droga, quando eles se devem, na verdade, ao efeito placebo, ou a um enviesamento de quem avalia. “O método científico é feito para nos proteger de nós mesmos, porque nós queremos que o resultado seja bom. Então você dá ivermectina para os seus pacientes no consultório, e eles ficam bons. Mas como você sabe que eles não ficariam bem se você não tivesse dado absolutamente nada para eles?”, complementa Tessler.
Um bom estudo que avalia tratamentos médicos em seres humanos, o ensaio clínico, no jargão da ciência, também deve ser randomizado no momento de incluir os participantes em cada um dos “braços”. Ou seja, os pacientes são colocados em um dos dois grupos de forma aleatória, sem escolha prévia, para que tanto o grupo que recebeu o tratamento quanto o que recebeu placebo tenham características semelhantes: idade, sexo, condições prévias de saúde, sociais, entre outras.
A revisão é dita por pares porque é feita por especialistas, assim como o autor da pesquisa, para conferir, dentro do texto, se há algum erro metodológico. “O papel da revisão é garantir que a produção científica tenha qualidade”, diz Caramelli.

A pandemia potencializou um problema com que a ciência se depara há alguns anos, principalmente após a popularização da internet. Se, por um lado, a multiplicação de periódicos representou algum avanço na democratização do acesso e divulgação do conhecimento científico, por outro, deu origem a uma série de publicações científicas (ou com cara de científicas) de baixíssima qualidade e alta tolerância para artigos metodologicamente ruins, quando não escritos a partir de dados fraudados. É neste tipo de revista que se insere a totalidade dos estudos que expõem como conclusão a eficácia da ivermectina contra a covid.


QUALIDADE

Quase nenhum fator que vamos elencar aqui, isolado, é garantia da qualidade de uma produção científica. Mas todos se complementam, e o primeiro indício é a qualidade do periódico onde a pesquisa foi publicada. Existem revistas predatórias, que têm uma revisão por pares fraca ou até mesmo inexistente, estando interessadas apenas em receber o valor que o autor paga para publicar ali. “Esse problema é anterior à pandemia, e uma das coisas que o explicam é a pressão, na carreira acadêmica, para que o cientista publique artigos. Ele depende de um volume de publicações para progredir e ter financiamento”, explica Ana Carolina Peçanha.


IMPACTO

fator de impacto de uma revista diz quantas vezes, em média, um artigo publicado nela é citado em outros artigos. Ele é mais um indício da qualidade da revista. A mais famosa da área médica, o New England Jornal of Medicine, por exemplo, tem o mais alto fator de impacto entre todas as revistas científicas, maior que 90.

Ana Carolina Peçanha diz também que as revistas menos importantes ganharam algum empoderamento na crise da covid, e até aumentaram seu fator de impacto. “A própria revista tem interesse em publicar artigos com resultados extraordinários, que sejam polêmicos, mesmo que gerem críticas, pois geram citações”, afirma a pesquisadora.

Por fim, Alencar Neto destaca que os estudos têm objetivos diferentes, e por isso nem sempre um bom estudo estará nas maiores revistas. Mas se o artigo está num bom periódico, certamente tem mais chance de ser confiável.


QUESTÕES DE MÉTODO

Depois, é preciso verificar se o estudo foi duplo cego, quando nem a pessoa que recebeu a intervenção, nem quem a avalia sabem se ela recebeu o medicamento ou o placebo. O cegamento serve para evitar ou diminuir a atribuição de resultados a uma droga, quando eles se devem, na verdade, ao efeito placebo, ou a um enviesamento de quem avalia. “O método científico é feito para nos proteger de nós mesmos, porque nós queremos que o resultado seja bom. Então você dá ivermectina para os seus pacientes no consultório, e eles ficam bons. Mas como você sabe que eles não ficariam bem se você não tivesse dado absolutamente nada para eles?”, complementa Tessler.

Um bom estudo que avalia tratamentos médicos em seres humanos, o ensaio clínico, no jargão da ciência, também deve ser randomizado no momento de incluir os participantes em cada um dos “braços”. Ou seja, os pacientes são colocados em um dos dois grupos de forma aleatória, sem escolha prévia, para que tanto o grupo que recebeu o tratamento quanto o que recebeu placebo tenham características semelhantes: idade, sexo, condições prévias de saúde, sociais, entre outras.




segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Covid-19 e a ética das publicações científicas



Os preceitos do método científico estabelecem que toda pesquisa rigorosa deve começar com a formulação de uma hipótese, com base nas informações disponíveis sobre o assunto em questão, juntamente com o conhecimento e a experiência do pesquisador. Em seguida, essa hipótese precisa ser apoiada por observações precisas e pela realização do trabalho experimental essencial que apoia sua validade. Somente o acúmulo de dados favoráveis ​​e inequívocos garantiria sua publicação, geralmente por meio de monografias especializadas, artigos científicos populares ou artigos .

Portanto, a publicação de resultados consistentes culminaria em uma etapa do longo processo de pesquisa. Cabe então à própria comunidade científica submeter essa hipótese a uma crítica exaustiva para refutá-la ou confirmar sua veracidade, fortalecendo-a com novos princípios que permitam postular uma teoria coerente. Pouquíssimas teorias chegam à categoria de leis dotadas de significado universal, dando crédito à genialidade de seus autores.

No entanto, nas últimas décadas, a pesquisa tornou-se uma tarefa exigente e competitiva , colocando grupos consolidados uns contra os outros para serem os primeiros a ter sucesso, principalmente em áreas de ponta e prioritárias. Governos, instituições públicas e fundações estabeleceram um conjunto de critérios, teoricamente objetivos mas restritivos, para selecionar os –supostos– melhores e mais capazes candidatos, cujas pesquisas serão financiadas, em detrimento de tantos cientistas medíocres, condenados ao ostracismo.

O número e a qualidade das publicações representam o sancta santorum de qualquer pesquisa atual , preceito que pode ser quantificado através de vários parâmetros: principais periódicos , fator de impacto, índice h, citações, decis etc., que geram um resultado matemático, traduzível como triunfo ou fracasso.

Consequentemente, inúmeros pesquisadores lançaram uma corrida obsessiva e imparável, buscando obter dados rápidos que garantam publicação imediata. É a sublimação do axioma: “Na ciência, o que não se publica não existe” que, usado tortuosamente nestes tempos confusos, despreza atitudes éticas e ideias novas, mas difíceis e mais lentas de executar.

Os efeitos perversos de uma estratégia tão insana são evidentes: o planejamento repetitivo de curto prazo exige resultados rápidos sem checagem, autoria falsa ou um número desproporcional de autores.

Especialmente grave é a terrível pressão sobre os jovens pesquisadores , que recebem uma formação degradada, sem honestidade ou ética de trabalho.

Vendo o futuro emprego condicionado ao desempenho da publicação, casos de falsificação, fraude, plágio e outros comportamentos imorais são e continuarão sendo frequentes. Nessa atmosfera viciada, a ciência fechou os olhos, concordando equivocadamente em mudar seu paradigma: "produzir" substituiu "descobrir".

As consequências dessa deriva: o exemplo da pandemia de covid-19

Um exemplo óbvio dessa deriva científica incongruente vem de publicações científicas relacionadas à covid-19. Até o final de 2019, os artigos científicos sobre coronavírus eram relativamente escassos, apesar das epidemias anteriores conhecidas como SARS (2003) e MERS (2012).

No entanto, o surto repentino da pandemia em 2020 provocou um crescimento, não apenas exponencial, mas estratosférico, de artigos relacionados à covid-19, provavelmente sem precedentes na história da comunicação científica . Algumas fontes confirmaram a constante duplicação do número de publicações, catalogando cerca de 500 novos artigos diários sobre SARS-CoV-2.

Embora desproporcional, tal aumento seria justificado pelo terrível impacto de uma pandemia planetária ainda inacabada. No entanto, um exame mais atento revela facetas que questionam a ética de muitas publicações.

Inicialmente e para garantir sua confiabilidade, os periódicos devem submeter as comunicações recebidas à revisão por pares. Assim, são avaliados criticamente por especialistas da área de forma rigorosa e anônima. Somente seu julgamento favorável garante a aceitação; esta peneira ignora itens de baixo nível. Não sendo perfeito, este sistema editorial foi aceito por unanimidade.

Pelo contrário, na covid-19 é comum encontrar artigos recebidos e aceites rapidamente, mesmo no mesmo dia, impossibilitando assim a sua indispensável revisão prévia. Também encontramos publicações superficiais, cientificamente irrelevantes ou sem controles exequíveis .

Em outras ocasiões, são descritos ensaios terapêuticos preliminares, com amostras insuficientes ou com curto intervalo de tempo, o que não permite tirar conclusões definitivas. Também é comum que linhas de pesquisa muito distantes busquem algum tipo de conexão com o termo “covid-19” para facilitar sua visibilidade, com o consequente interesse dos periódicos mais prestigiados.

Em nosso mundo de interesses complexos e informações superdimensionadas, as consequências negativas vão além da condenação de atitudes acadêmicas e científicas eticamente condenáveis.

Pensemos, por exemplo, que a aplicação fraudulenta de propostas de vacinas ou tratamentos terapêuticos que não foram suficientemente testados e contrastados pode colocar em risco a vida de muitas pessoas, ainda que os órgãos de vigilância exerçam controles muito rigorosos.

É claro que esta análise crítica não é universalmente válida, nem pretende depreciar os estudos mais sérios e conscienciosos. Mas é inegável que sob o pretexto da pandemia e sob a premissa “publique, resta alguma coisa”, um número significativo de artigos científicos contendo dados errôneos ou pouco confiáveis, quando não oportunistas e desnecessários , vieram à tona.



Fonte: The Conversation - Rigor Acadêmico, Talento Jornalístico

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Como cuidar de um familiar infectado por Coronavírus que testou positivo e está dentro da sua casa?

Fonte: Google imagens


1) Não tenha “medo” da pessoa que você vai cuidar, ela precisa da sua ajuda.

2) Ela precisa ficar “isolada”, então, deixe-a num quarto, numa sala, numa área de pouca passagem para as outras pessoas.

3) Se tiver um banheiro separado, tipo um “quarto de hóspedes” é lá que essa pessoa deve ficar, sem sair... se você não tem um lugar assim, deixe a pessoa numa sala arejada, ela deve estar todo o tempo de máscara, deve higienizar as mãos sempre e, não sair daquele local... (só sai pra tomar banho e usar o banheiro).

4) Se o banheiro for de uso comum, tudo bem... Não se desespere... Após a pessoa tomar banho, fazer necessidades, ela mesma pode pegar um pano com álcool a 70% ou solução de água sanitária 50 ml + 950 ml de água e passar na tampa do vaso sanitário, no chão do banheiro, nas torneiras, na pia, na maçaneta da porta... Se a pessoa for idosa, você coloca luvas, máscaras, prende seu cabelo e vai lá passar essa solução em tudo!

5) Em todas as portas da casa você deve colocar um pano úmido com água sanitária especialmente naquele ambiente em que a pessoa está.

6) Se você puder comprar copos, garfos, facas e colheres descartáveis será melhor... Mas... Se não puder, deixe uma bacia com água e água sanitária para a pessoa colocar os talheres, copos e pratos “de molho” nesta mistura... E você pegará essa bacia 1x por dia, com luvas e lavará os objetos 1x por dia... A pessoa infectada não vai tocar na bacia. Vai apenas depositar os objetos na solução. Marque os talheres com esmalte para unha (vermelho)... Assim você tem certeza que não vai misturá-los... Marque os copos e pratos, também com as iniciais do nome da pessoa.

7) Cobertores, lençóis, fronhas, cobertas, travesseiros devem ficar isolados, até que a pessoa se recupere... Não lave-os junto com as roupas da casa... (se for lavar e reutilizar, use uma mistura com água e um pouco de água sanitária pra deixar de molho antes de lavar!).

8) Ofereça os remédios sempre em copos descartáveis...ou num guardanapo de papel.

9) Você, que é “cuidador” e seus familiares, que estão na casa, devem manter distância dessa pessoa e devem usar máscaras também.

10) Devem manter distância, mas... “cobrí-la” com amor e respeito!





Fonte: Dra. Angélica Cristina Petry 

terça-feira, 28 de abril de 2020

HORA DE DISTÂNCIA FÍSICA E SOLIDARIEDADE TOTAL

A pandemia de Covid-19 atingiu simultaneamente 156 países, em março, com a maior concentração de novos casos na Europa. No Brasil, mesmo com a vantagem de um sistema de saúde público e gratuito, as recomendações de distanciamento social e trabalho remoto esbarram numa realidade desigual de condições de moradia, trabalho e renda. Pesa também o contexto mundial, mais agudo aqui, de desvalorização do conhecimento científico e desrespeito a direitos humanos e sociais, resultando em ignorância, oportunismo e mais exclusão. Felizmente, ainda há solidariedade, como a dos profissionais da saúde, que se arriscam na linha de frente dos atendimentos e têm sido aplaudidos pela população.
Desinformação intencional virou problema de saúde pública. Desfazer o estrago que causam as fake news consome tempo e energia que deveriam ser direcionados à aproximação da população com especialistas da saúde, para que a realidade e as necessidades sociais interajam com o conhecimento, as orientações e as regulações sanitárias. Em três meses, a Fiocruz recebeu mais de 500 solicitações da imprensa para entrevistas. Em março, 40 por dia. Desde janeiro, 450 mil exemplares da Revista Radis chegaram às mãos dos leitores e o Portal Fiocruz, com bastante conteúdo sobre coronavírus, teve 3,3 milhões de acessos.
Profissionais de comunicação da Fiocruz querem promover diálogo entre os saberes técnico-científico e popular. É o caso de Pauliran Freitas, ao contar nesta edição suas aventuras atrás das câmeras em reportagens e documentários que têm como protagonistas suas paixões: o SUS e o povo. O repórter cinematográfico dedicou 47 dos seus 65 anos ao serviço público e ainda fala com entusiasmo sobre o futuro da comunicação e saúde.
Supostamente distante de tudo, a população ribeirinha da região amazônica vive no epicentro do processo de destruição socioambiental movido por agronegócio, mineração e grandes projetos não sustentáveis que reduzem a floresta, contaminam a água, ameaçam populações tradicionais e invadem reservas naturais, indígenas e quilombolas. É uma população que precisa muito do SUS. Em reportagem, o editor Adriano De Lavor mostra o difícil e belo trabalho de uma equipe multiprofissional numa Unidade Básica de Saúde Fluvial do município de Tefé/AM. A embarcação percorre as comunidades tratando cada grávida, cada criança, cada senhor ou senhorinha “como gente”, diz um dos ribeirinhos.
Respeito ao cidadão é o foco de Luiz Felipe Stevanim na matéria sobre como as informações pessoais digitais são hoje objeto de comércio e controle por parte de corporações e governos, com riscos à privacidade e à saúde. Luiz Felipe substitui como subeditor Bruno Dominguez, que deu enorme contribuição à revista, desde 2006. Outro colega que segue para novos desafios é Jorge Ricardo Pereira, que organizou e digitalizou todo o acervo do Programa Radis. Aos queridos Bruno e Jorge, nosso reconhecimento e agradecimento.
Em meio à crise sanitária, voltam a circular propostas de reduzir os salários já defasados de servidores como os professores, que formam nas escolas e universidades públicas os profissionais que se dedicam a estudar os fatores biológicos, sociais, econômicos e ambientais que determinam os processos de novas e antigas doenças. Por que reduzir salários de servidores como os pesquisadores e técnicos que, em tempo recorde, sequenciaram o genoma do coronavírus, desenvolveram tecnologia de diagnóstico, treinaram equipes brasileiras e sul-americanas para as testagens, trabalham em turnos ininterruptos para produzir milhões de kits para o SUS? Como reduzir ainda mais os salários de enfermeiros, médicos, técnicos, agentes e demais profissionais de saúde que cuidam das pessoas que estão sendo atingidas, com alto risco de se contaminar, trabalhando em condições inadequadas, dada a redução de investimentos no SUS, exercendo jornadas extenuantes, muitos deles mantendo-se afastados de seus lares para não contaminar suas famílias? Um jornal de decrescente circulação e baixíssimo compromisso social chegou a publicar editorial apoiando essa ideia, tão perversa quanto inócua para enfrentar a pandemia.
Em afronta a direitos e à situação de desemprego que desalenta as famílias brasileiras, cogitou-se autorizar a suspensão de contratos de trabalho e a suspensão ou redução de salários dos trabalhadores da iniciativa privada, na contramão do que todos os demais países estão fazendo. Que tipo de gente, em sã consciência, pensaria em penalizar e desproteger ainda mais os trabalhadores na iminência de uma doença? No país que destina cerca de 50% do orçamento da União para pagar sem questionar os juros e encargos de uma dívida pública nunca auditada, como já pontuaram diversos entrevistados em edições anteriores, por que não alocar no SUS e no enfrentamento à pandemia os recursos do pagamento dessa dívida e suspender os perversos efeitos do congelamento por 20 anos dos “gastos” com os serviços públicos a que a população tem direito e tanto precisa nessa hora?



Rogério Lannes,

RADIS Comunicação e Saúde - FIOCRUZ

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Cientistas brasileiros capturam o momento exato em que o COVID-19 infecta uma célula

As imagens mostram o comportamento dos patógenos do vírus enquanto alteram o citoplasma de uma célula de linhagem "vero".



A imagem do microscópio mostra a formação de um ponto preto que corresponde ao patógeno COVID-19. (EFE)



Cientistas brasileiros capturaram imagens do exato momento em que o novo coronavírus (COVID-19) infecta uma célula, informou na quarta-feira a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Brasil , o maior centro de pesquisa médica da América Latina.

As fotografias foram tiradas com um microscópio eletrônico de transmissão durante um estudo sobre a replicação viral do SARS-CoV-2 e mostram em detalhes o processo de contaminação de uma célula, anunciou a Fiocruz em comunicado.
Para isso, pesquisadores da Fiocruz, órgão vinculado ao Ministério da Saúde do Brasil, infectaram células da linhagem "Vero", frequentemente utilizadas para testes in vitro e culturas de células, com o coronavírus, causador da doença de COVID-19.
Em um dos instantâneos, observa-se uma série de manchas escuras, que na verdade são partículas virais do patógeno, tentando infectar o citoplasma da célula, dentro do qual está o núcleo, responsável por armazenar seu material genético.
Cravos pretos são patógenos da SARS-CoV-2, enquanto tentam infectar o citoplasma das células.  (EFE)
Cravos pretos são patógenos da SARS-CoV-2, enquanto tentam infectar o citoplasma das células. (EFE)
Em uma segunda imagem, o coronavírus inicia o processo de infecção e, finalmente, em outra injeção, as partículas virais dentro da célula já são visualizadas.
Nesse momento, o patógeno do vírus já infecta as células.  (EFE)
Nesse momento, o patógeno do vírus já infecta as células. (EFE)
O registro é inédito no Brasil e faz parte de uma investigação que estuda como o novo coronavírus se reproduz e que é conduzida por cientistas do Laboratório de Morfologia e Morfogênese Viral e do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo.
O Brasil é o país latino-americano mais afetado pela nova pandemia de coronavírus, com 706 mortes e 14.275 casos confirmados até quarta-feira.
Segundo o Ministério da Saúde, que prevê que o pico chegue entre abril e maio, os dados mostram uma taxa de mortalidade de patógenos no país sul-americano de 4,9%.
O estado de São Paulo, o mais rico e mais populoso do Brasil, com cerca de 46 milhões de habitantes, é a região mais atingida, com 371 mortes e 5.682 infecções.







sábado, 11 de abril de 2020

ABEC Brasil e Ibict lançam repositório de preprints


Nos próximos dias, a Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC Brasil) e o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) lançarão um repositório de preprints pioneiro, voltado para revistas científicas. Batizado de EmeRI – Emerging Research Information – o repositório parte de uma demanda de editores científicos, em meio à urgência de divulgar resultados de pesquisa sobre o novo coronavírus.original.
“Na concepção original, repositórios são alimentados por autores.  As revistas não têm tal recurso à disposição e não têm como oferecer a informação nesse estágio intermediário, entre a aprovação na revisão inicial de conformidade e a tramitação pelos pareceristas científicos e a preparação editorial. O EmeRI inova, ao oferecer essa possibilidade”, afirma Piotr Trzesniak, Secretário-Geral da ABEC Brasil e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
“O apoio da equipe de Coordenação Geral de Pesquisa e Manutenção de Produtos Consolidados do Ibict, comandada por Bianca Amaro, está sendo fundamental nessa rápida viabilização do projeto”, conclui. 
preprint é um artigo que ainda não passou pela tradicional avaliação por pares – que pode levar vários meses – mas que mesmo assim é disponibilizado para acelerar o acesso à informação. Atualmente, não há um servidor centralizado que permita às revistas científicas a publicação de preprints.
O EmerRI se propõe a ser uma plataforma aberta para revistas científica de todo o mundo, não apenas do Brasil, mas sempre com um olhar carinhoso para os países cientificamente emergentes. 
Será alimentado pelos próprios editores. Os preprints deverão ter passado pelo processo de desk review – aprovados para prosseguir para a etapa de revisão por pares -, segundo o critério de cada revista, além de ter a autorização dos autores.
A proposta surgiu há cerca dez dias e será lançada com a expectativa de contar com colaboração de toda comunidade ligada à produção e editoração científica para a alimentação, bem como para avaliação e sugestões que possam ajudar o aperfeiçoamento da plataforma.
Mais informações serão compartilhadas em breve.

terça-feira, 31 de março de 2020

COVID-19 E DEPENDÊNCIA CIENTÍFICA



Dependência cultural, como refletido em publicações científicas

A pandemia do vírus SARS-CoV-2 responsável pelo Covid-19 destaca a necessidade de cada país ter dados, análises e pesquisas científicas confiáveis, produzidos a partir de diferentes áreas do conhecimento, e que circulam rapidamente pelos espaços de entrada. de decisões, para contextualizar as políticas.
Mas essa necessidade de autonomia no processo de publicação e distribuição de pesquisas científicas cristaliza o efeito prejudicial dos incentivos simbólicos e econômicos por parte dos Estados para que essas pesquisas sejam publicadas em inglês, em periódicos com alto "fator de impacto", gerenciado, editado e distribuído por grandes redes comerciais na indústria científica.
Essas empresas multinacionais não financiam as investigações, nem pagam royalties àqueles que participam da cadeia de produção, mas pelo contrário: cobram quantias significativas pela edição e publicação de um artigo (que excede US $ 3.000) e depois coletam acesso a esse conteúdo. Portanto, os Estados financiam a pesquisa, alocam fundos para pagar as taxas de publicação e adquirem acesso à programação completa de cada uma dessas empresas. Os números publicados em algumas pesquisas sobre estimativas de valores gastos pelos países industrializados mostram que a Alemanha, por exemplo, em 2013 gastaria US $ 140 milhões em encargos de processamento de artigos editoriais ou encargos de processamento de artigos.(APC) e mais de US $ 200 milhões de euros para acessar esse conteúdo, ou seja, 340 milhões de euros apenas no processo de edição e distribuição de pesquisas anteriormente financiadas pelo estado alemão.
E por que seria prejudicial para o Estado argentino incentivar e financiar esse modelo de publicação? Primeiro, porque ao comercializar a distribuição, essas grandes cadeias restringem o acesso à pesquisa. Utilizando uma metáfora do futebol, a disputa internacional no campo da comercialização do acesso ao conteúdo científico é semelhante à disputa entre o futebol criptografado e o modelo Football for All., o que equivaleria ao movimento de acesso aberto à informação científica, com grande apoio internacional. Mas o grande problema com o modelo de negócios das cadeias de distribuição de conteúdo científico é que ele concentra e monopoliza muito mais o mercado: é como se, em vez de pagar uma taxa mensal a um provedor local para assistir aos jogos nacionais, tivéssemos que pagar mais de US $ 30 dólares (que é o que sai para baixar um único artigo científico) a um distribuidor internacional para assistir a um único jogo, e que os clubes não recebiam um peso como royalties. Os clubes nacionais seriam des financiados, enquanto o distribuidor internacional aumentaria significativamente seus lucros. (Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.)
Esse modelo de comercialização de acesso tem sido amplamente criticado pela mídia e pela comunidade científica, mesmo nos países mais industrializados. Quase dez anos atrás, quando George Monbiot ironizou no jornal inglês The Guardian : “Quem são os capitalistas mais cruéis do mundo ocidental? Quais práticas monopolistas fazem o Walmart parecer a loja da esquina e Rupert Murdoch um socialista? E ele continuou: "Embora haja muitos candidatos, meu voto não vai para bancos, empresas de petróleo ou seguro de saúde, mas para editoras científicas".
Diante da atual necessidade de circulação irrestrita de informações científicas, em 31 de janeiro, um dia após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar o Covid-19 como uma emergência de saúde pública de interesse internacional, o Wellcome, um dos Os grandes fundos para pesquisa em saúde, que mantêm um forte compromisso com o livre acesso à informação científica, publicaram um apelo público à comunidade científica, revistas e patrocinadores "para garantir que os resultados da pesquisa e os dados relevantes sobre essa epidemia sejam compartilhados de maneira rápida e aberta". E continuou: "Especificamente, estamos comprometidos em trabalhar juntos para ajudar a garantir que todas as publicações de pesquisa revisadas por pares relevantes para a epidemia tenham acesso imediatamente aberto ou estejam disponíveis gratuitamente pelo menos durante a epidemia".
Apesar desse apelo internacional, alguns grandes editores científicos continuaram a comercializar o acesso a pesquisas de grande relevância para a tomada de decisões. A multinacional Sage, por exemplo, abriu o acesso ao material publicado no Covid-19 em 12 de fevereiro , mas outras grandes multinacionais continuaram a comercializá-lo. Dada a gravidade da situação, a Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, uma das entidades públicas americanas mais combativas para o livre acesso à informação científica, reuniu as organizações nacionais de ciência e tecnologia de uma dúzia de países , e as 13 de março de 2020, quando a pandemia já havia atingido 122 países, eles anunciaram o "Iniciativa COVID-19 de Emergência em Saúde Pública ”, na qual pediram especificamente a editores científicos que aceitassem voluntariamente o pedido de acesso imediato a publicações relacionadas ao Covid-19 para disponibilizá-las gratuitamente através do banco de dados PubMed Central (PMC) e outros repositórios públicos que poderiam colaborar com a emergência de saúde pública. Somente em 16 de março, a Elsevier liberou o acesso exclusivo ao conteúdo do Covid-19 e a Wellcome divulgou a lista de mais de 30 editores científicos comprometidos em liberar conteúdo relacionado ao novo vírus.
Embora a comercialização do acesso à pesquisa seja uma das grandes batalhas travadas no campo científico, que o Estado incentive e financie esse modelo de publicação é prejudicial e prejudicial ao próprio país por uma razão mais complexa: porque Começa a moldar os interesses da pesquisa, a relegar e desvalorizar os problemas nacionais, questões inovadoras ou mal trabalhadas, a se alistar em áreas que já são altamente populosas, para garantir alta citação. Dessa forma, a agenda de pesquisa está alinhada com outros interesses. Um proeminente doutor em química em nosso país declarou publicamente que “os periódicos latino-americanos têm baixo impacto porque recebem segundo, terceiro ou quarto artigos de seleção.O que não podíamos publicar na Nature, tentamos publicar em Elsevier e o que não publicamos, tentamos publicar na Argentina ”. Essas declarações, repletas de ideologia e ausentes de uma análise profunda sobre os processos de estratificação da ciência mundial, são frequentemente ouvidas em "conversas sobre café" que reproduzem e alimentam o senso comum de uma argentinidade que parece ter sido ancorada nas "zonceras argentinas" Por Arturo Jauretche, ou pior, na dicotomia "civilização e barbárie" de meados do século XIX. O sério é que eles são traduzidos em regulamentos. Nos hospitais públicos de nosso país,
A definição da OMS de doenças “negligenciadas” ou “negligenciadas” (como dengue, raiva, leishmaniose, doença de Chagas, entre outras) é um exemplo claro dessa distorção. Embora sejam doenças que "reduzem permanentemente o potencial humano, mantendo mais de um bilhão de pessoas na pobreza e, portanto, representam um enorme ônus econômico para os países endêmicos", como menciona a OMS ", elas recebem pouca atenção e são atrasadas nas prioridades de saúde pública porque os afetados carecem de influência política ". Eles não causam surtos que capturam a atenção do públicoe a mídia. Eles não viajam de um país para outro, nem afetam os países ricos. ” Em resumo, eles não fazem parte da agenda de pesquisa dos países industrializados e, portanto, não são de interesse da indústria editorial científica, de modo que o sofrimento das pessoas afetadas acaba sendo relegado e tornado invisível pelos próprios países afetados. .
E por que o próprio sistema de avaliação da produção científica está incentivando a comunidade científica a olhar para fora? O matemático Oscar Varsavsky, em seu livro Science, Politics and Scientism , publicado em 1969, já questionava a "dependência cultural que a maioria aceita com orgulho, mesmo acreditando que esteja acima de 'pequenos nacionalismos'". Mais de 50 anos se passaram desde as palavras de Varsavsky e o cenário não apenas não mudou, mas piorou. A dependência científica do modelo de publicação e distribuição comercializado pela indústria editorial levou a mudanças nas agendas nacionais de pesquisa e a subfinanciamento do sistema de publicação e distribuição da produção científica através das revistas publicadas no país.
Mas esse não é um problema limitado à Argentina ou aos países da América Latina. Segundo o Dr. Jie Xu, da Universidade de Wuhan , o governo chinês tem feito grandes esforços para reverter os incentivos para publicar em revistas editadas pela indústria editorial científica, pois levaram ao aumento da produção de artigos de qualidade duvidosa. Pesquisadores em escravos para citar métricas e incentivaram a má conduta investigativa. A crise gerada pelo Covid-19 no sistema de pesquisa chinês colocou o eixo na geração de políticas científicas baseadas nas reais necessidades do país e no privilegio da publicação em revistas científicas chinesas, e não em revistas da indústria editorial.
O grande salto tecnológico que ocorreu na edição científica em nível internacional na última década, não se refletiu na Argentina. A falta de financiamento e incentivos causou uma grande diminuição no número de revistas com capacidade de dialogar com o cenário internacional. Por exemplo, na área de ciências da saúde, das 588 revistas argentinas registradas no diretório Latindex, apenas 7 foram aceitas no PubMed, a biblioteca eletrônica mais relevante no campo das ciências da saúde. E isso não significa que o resto das revistas publique o "quarto" artigo, como o senso comum expressaria. É um processo complexo, semelhante à abertura de importações: a indústria local é des financiada, as capacidades e os conhecimentos que existiam nas décadas anteriores são perdidos e ocorre uma grande desvalorização da produção nacional.
Apostar no fortalecimento de canais de circulação da ciência que estimulem a investigação de problemas nacionais e garantam, por sua vez, a inserção no diálogo internacional ainda é uma dívida pendente. A crise atual deve funcionar como um catalisador para uma mudança necessária, o que exigiria pelo menos duas apostas: por um lado, para áreas que já possuem periódicos científicos, melhore o desenvolvimento de sistemas integrados de publicação eletrônica com a capacidade de dialogar de uma maneira automatizado com sistemas de validação de dados e distribuição de conteúdo, para acelerar a circulação da pesquisa; e, por outro lado, para as áreas com poucas revistas com pouca circulação, projete um sistema de publicação que integre essas áreas em uma única plataforma de publicação.
Diante da crise causada pela pandemia, a autonomia ganhou importância renovada, não apenas nas práticas científicas, mas em vários níveis da economia e da indústria. Mas, para começar a reverter a dependência, precisamos não apenas gerar estruturas ágeis que respondam às necessidades atuais, mas também ter em mente que, como Varsavsky disse, a dependência é "cultural", e é por isso que a grande batalha ocorre em um nível simbólico. de representações, na desconstrução de uma história contaminada por frases construídas em realidades que não nos pertencem.

POR: VIVIANA MARTINOVICH
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