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Publicação de estudos científicos

Caros leitores, A Journal Health NPEPS (ISSN 2526-1010) é uma revista científica produzida pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNE...

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Vida e carreira do maior editor independente do Brasil

Massao Ohno foi o editor da ruptura e da ousadia, apresentando um trabalho rico e variado durante toda sua trajetória editorial


Não sabe-se ao certo se por sonho ou delírio, mas Massao Ohno (1936-2010) viveu sua vida ansiando o dia em que faria a cidade amanhecer com poemas nos outdoors, ao invés de anúncios de massa de tomate, desodorantes e calcinhas. O filho de imigrantes japoneses talvez não tenha chegado a tanto, mas foi o responsável por lançar toda uma geração de poetas nos anos 1960, conhecidos como Os Novíssimos, além de publicar nomes como Hilda Hilst, Renata Pallottini e Lupe Cotrim.

O trabalho editorial de Ohno foi muito importante e, por isso, é relembrado até hoje – afinal, ser editado por Massao Ohno era como que ganhar um selo de qualidade. Todo poeta queria ser publicado por ele. E, aparentemente, o editor queria publicar todo mundo. É justamente esse trabalho editorial de décadas que uniu poesia (muitas vezes inovadora) e requinte gráfico que pode agora ser visto no livro Massao Ohno, Editor (Ateliê Editorial), do professor e crítico José Armando Pereira da Silva. No volume – que foi editado com o apoio do ex-editor Frederico Jayme Nasser -, ele mostra e analisa as diversas fases do trabalho do editor, que renderam mais de 700 obras publicadas. No volume da Ateliê são apresentados cerca de 200 livros. “Fui mexendo muito no assunto e acabei com um enorme acervo de obras dele. No meu livro dou um enfoque maior para a primeira fase do trabalho dele, que coincide com a geração dos poetas de 1960”, diz Pereira da Silva.

Segundo o autor, a ideia de começar a pesquisar e escrever sobre Massao Ohno surgiu depois de uma homenagem feita para ele em 2004. “Algumas das pessoas presentes ao evento falaram sobre a obra dele mas não pareciam ter muita noção da dimensão, do que realmente tinha significado”, contou. Depois de conversar com o próprio Ohno, já doente mas ainda ativo, José Armando Pereira da Silva começou esse trabalho que durou anos e que agora chega às livrarias. 

Relação poeta e editor


  “Não existe relação poética sem editor. No caso do Massao, no que ele se pôs a editar poetas, acabou agregando um grupo que ficaria conhecido como a geração 60”, afirma Cláudio Willer, que, além de ensaísta e tradutor, é poeta e teve seu primeiro livro publicado por Ohno em 1964. Para ele, a relação entre poeta e editor é dialética, a reputação deles se torna mutualística e, neste caso, não só Massao Ohno se tornou o maior editor independente de sua época, como os artistas viraram referências na área da poesia. 
Segundo Willer, que também é doutor em Literatura pela FFLCH, em uma de suas conversas com Massao, o editor lhe disse: “Quero te publicar”. “Antes disso, essa ideia nem passava pela minha cabeça”, conta o autor. Anotações para um Apocalipse, seu primeiro livro, foi lançado junto com Piazzas, de Roberto Piva, também poeta e grande amigo de Willer. Produzidos como edições de bolso, em preto e branco e sem ilustrações ou efeitos gráficos, o design dos volumes tinha o objetivo de acompanhar seu conteúdo nada convencional. Eles inauguravam a Coleção Maldoror, que não pôde ir para a frente por falta de verba. 
Foi também nessa época que Massao Ohno trabalhou com Hilda Hilst, Lupe Cotrim, Renata Pallottini e Ida Laura, que já tinham certa experiência e não se enquadravam rigorosamente na Geração 60 – desta, além de Willer e Piva, faziam parte nomes como Sérgio Lima, Carlos Felipe Moisés e Décio Bar, entre outros. Nesses trabalhos o editor optou por uma produção mais artística e artesanal, valorizando as obras e evidenciando seu sentimento em relação à profissão que exercia. Como em Sete Cantos do Poeta Para o Anjo, da Hilda, e Livro de Sonetos, da Renata, que tinham designs arrojados e inovadores para a época. 
O final dos anos 1960 e início dos 1970 na carreira de Ohno foi marcado por um afastamento das atividades de editor. Nesse período ele focou em atividades cinematográficas, assumindo a produção executiva de Riacho de Sangue, de Fernando de Barros, e dirigindo o documentário O Novo Nordeste, além de distribuir outros títulos japoneses e brasileiros pouco comerciais. 

Primeiro logotipo usado por Massao Ohno para a Coleção dos Novíssimos – Foto: Reprodução/Ateliê Editorial

“Quando ele voltou a publicar poetas, resolveu fazer um grande lançamento coletivo e pediu para que eu e outros amigos coordenassem o que depois se tornaria a Primeira Feira Paulista de Poesia e Arte”, diz Willer. A feira aconteceu em 1976, no Teatro Municipal, e representava a volta de Massao à cena editorial da época. Segundo o que ele próprio disse em entrevista depois, o evento alcançou os objetivos propostos, incentivando um encontro entre diferentes públicos e correntes artísticas, além de ampliar a visão sobre o que vinha sendo feito em São Paulo, principalmente em termos de criação poética. 
Nos anos 1980, Ohno se associou à Editora Civilização Brasileira, situada no Rio de Janeiro. O acordo veio como uma oportunidade para que o editor pudesse expandir sua área de atuação, e continuasse com produções independentes. A aliança, no entanto, foi curta, e embora Massao tenha publicado algumas coleções no Rio, como Poesia SemprePoesia Hoje e Pôsters-Poemas, ele não reviveu seu sucesso no ambiente carioca. A maior relevância desse período em sua carreira talvez tenha sido os contatos adquiridos, que o levaram a publicar Olga Savary, Marly de Oliveira, Ledo Ivo, entre tantos outros poetas. 
Até o ano 2000 o editor ainda publicou uma quantidade substancial de obras, e embora a poesia predominasse, as demandas de vários outros segmentos aumentaram. A partir daí as publicações ficaram mais escassas mas, de acordo com Willer, sua vontade de editar nunca diminuiu. “Quando ele ainda não sabia sobre o câncer que progredia em seu pulmão, nos encontramos em uma homenagem ao Roberto Piva e eu ouvi novamente dele: ‘Willer, quero te publicar’”.

Sobrecapa do livro Massao Ohno, Editor – Divulgação Ateliê Editorial

Massao Ohno morreu em 2010 deixando mais de 700 livros publicados em sua carreira. “Eu diria que ele foi importante pela capacidade que tinha de ler poesia sem ligar para se ela ofenderia ou não a moral e os bons costumes. O que lhe interessava mais era a arte, por isso também o cuidado com o tratamento gráfico dos livros”, afirma Willer. Dentre as parcerias firmadas por Ohno, é importante destacar os artistas plásticos que ajudaram no design de seus livros. É o caso de Acácio Assunção, João Suzuki, Manabu Mabe, Wesley Duke Lee, Tomie Ohtake, entre outros. É este trabalho gráfico apurado, principalmente, que pode ser visto agora no livro de José Armando Pereira da Silva.

Fonte: Jornal da USP     -     Confira aqui!!

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Redução de danos: promoção da saúde e respeito à vida

Criou-se no Brasil uma falsa polaridade entre a política de redução de danos e uma abordagem pela via da abstinência, na atenção ao usuário de drogas. Essa polaridade em nada contribui para o contínuo fortalecimento da redução de danos e sua proposta conciliadora e democrática, como analisam três especialistas nessa abordagem, que gravaram podcasts para o blog do CEE-Fiocruz – o pesquisador Francisco Inácio Bastos, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz); o psiquiatra e professor Paulo Telles, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (Nepad/Uerj), e a psicóloga Christiane Moema Sampaio, da Associação Brasileira de Redução de Danos (Aborda). Eles participaram do seminário 30 anos de redução de danos no Brasil – Um passado na contramão do presente, em 3/10/2019, que tratou desse conjunto de estratégias que visam reduzir os efeitos negativos do uso de drogas, respeitando-se o direito dos usuários ao cuidado à saúde.
“Em todo mundo há uma relação de complementaridade entre as propostas de abstinência e de redução de danos. Trabalha-se com duas coisas, que convivem de forma integrada”, observa Francisco Inácio, que retornou há pouco de evento no Canadá sobre o tema. “Criou-se aqui uma ideia de que tudo tem que ter uma polaridade direita-esquerda, quando nem sempre as ações têm caráter político. No Canadá não se discute redução de danos como questão de direita e esquerda. Não há interferência do Executivo, do parlamento ou do Judiciário. Isso segue normalmente como atribuição dos profissionais de saúde, respeitada pela sociedade. Quando você politiza, no mau sentido, perde a chance de lidar com as coisas de forma complementar e harmônica”, considera, lembrando que a abstinência é uma forma de reduzir danos. “Uma forma radical, mas não há polaridade, há complementaridade”.
Paulo Telles explica que o conceito de redução de danos começa a ganhar forma quando surgem as infecções associadas ao compartilhamento de seringas e agulhas, primeiro com a hepatite e depois com o HIV/Adis, passando-se a observar que a criminalização e a marginalização do usuário de drogas o afastava de uma possibilidade de prevenção e de atendimento. “A política de redução de danos permitiu que as pessoas tivessem acesso mais facilitado a estruturas de saúde e a insumos adequados para não se infectarem – muitos não tinham esse conhecimento”.
Como assinala Paulo, nem todos os usuários de drogas são sensíveis a estratégias de tratamento muito rígidas. “A redução de danos relativiza isso, ampliando a abordagem restrita à abstinência. Há uma tolerância ao uso [de drogas], e, ao mesmo tempo, com o usuário arriscando-se menos ao usar. Com isso, muito mais pessoas são engajadas em tratamento, com possibilidades de melhora”.
O conceito ampliado de redução de danos, voltado à ideia de cidadania, para além de uma “causa sanitária”, voltada a redução de infecções é enfatizado por Christiane Sampaio. “Encontramos no cenário [de uso de drogas] usuários extremamente vulneráveis, com poucos cuidados, com dificuldade de chegar a qualquer nível de assistência”, aponta, destacando a importância de olhar para a redução de danos sob esse outro paradigma, acatando a não abstinência, se esta não é desejada. “A redução de danos ganha nova configuração, voltando-se à possibilidade de a pessoa fazer mudanças na vida e constituir-se como sujeito, tomado em sua singularidade”. Essa abordagem, conforme assinala Christiane, está presente, hoje na proposta de atenção do SUS.
Se por um lado a psicóloga diz temer que o conceito de redução de danos possa ser “atacado por radicalismos”, por outro, considera que as três décadas de formulação do conceito deverá conferir-lhe uma estabilidade. “Estamos vivendo tempos difíceis, grandes extremos. Esse movimento nos faz temer que esse conceito possa ser atacado pelo radicalismo dos extremos, quando de extremista ele não tem nada. É conciliador, perpassa a subjetividade, é agregador, é democrático. Mas temos um trabalho de 30 anos; o imaginário social foi atravessado por essa lógica”.

Fonte: Centro de Estudos Estratégicos da FIOCRUZ      -     Confira aqui!!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Declaração sobre Ciência Aberta da Associação Canadense de Bibliotecas de Pesquisa (CARL)

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A Associação Canadense de Bibliotecas de Pesquisa (CARL) apoia a educação aberta, tendo em vista os claros benefícios sociais e econômicos que traz para o setor de ensino superior e para a sociedade. A CARL acredita que a missão das universidades é criar e disseminar conhecimento, e que um sistema científico aberto, acessível a todos os leitores, oferece a maneira mais segura de impactar positivamente a vida humana em todas as partes do mundo. A CARL também acredita que abrir todas as formas de ciência a um amplo exame melhora a qualidade, aumenta a responsabilidade e promove a colaboração, o que leva a maior visibilidade e impacto. As práticas de educação aberta se alinham bem com esses princípios, pois reduzem as barreiras à educação, alavancam a tecnologia para melhorar o ensino e o aprendizado e podem resultar em experiências de aprendizado de alta qualidade.
Com sua experiência única, a equipe da biblioteca da universidade e os bibliotecários estão bem posicionados nessa comunidade para serem motivadores da ciência aberta por meio de serviços de resposta para professores e alunos que podem afetar questões de retenção, equidade e vulnerabilidade financeira. No entanto, embora a ciência aberta ofereça àqueles que trabalham em bibliotecas universitárias oportunidades únicas e promissoras de participação no campus, haverá “… um impacto nos modelos de equipe e no que é considerado trabalho de biblioteca, com implicações para todo o departamento e seu relacionamento com o resto da organização. ”
A CARL está comprometida em apoiar a equipe de bibliotecas e bibliotecários no desenvolvimento de seus conhecimentos e habilidades em ciência aberta, à medida que defendem em seus próprios campi uma maior compreensão e reconhecimento deste trabalho e experiência.

Fonte: Universo Aberto (Blog da Biblioteca de Tradução e Documentação da Universidade de Salamanca)   Confira aqui!!

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Os artigos publicados em periódicos predatórios estão sendo citados na literatura científica legítima?

Grupo de pesquisadores mostra aversão ou não ao contrário

Para verificar como os artigos de periódicos predatórios são citados na literatura científica, foram analisados ​​sete periódicos que revelaram sua natureza predatória quando, cada um deles demonstrou claramente que o periódico em questão (apesar de suas reivindicações públicas rigorosamente revisadas por pares) publicam em troca do pagamento de encargos de processamento de artigos ou assumem como publicador alguém sem qualificação.

Posteriormente, as citações de artigos publicados nessas revistas foram pesquisadas  em três grandes agregadores de artigos científicos:
  • A Web of Science, que alega indexar mais de 90 milhões de documentos.
  • O banco de dados ScienceDirect de revistas e livros publicados pela Elsevier, que afirma incluir mais de 15 milhões de publicações.
  • PLOS ONE, um megaprojeto de acesso aberto que publicou cerca de 200.000 artigos em sua história.
As pesquisas foram realizadas em agosto de 2018 e repetidas em outubro de 2018 como controle. Em todos os casos, os resultados de outubro foram iguais ou ligeiramente superiores.
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Quando foram pesquisados ​​artigos na Web de Science, Science Direct e PLOS ONE citações de artigos publicados nesses sete periódicos, dois dos sete periódicos predatórios nunca foram citados para artigos nessas plataformas. Dessas plataformas, a que continha o menor número de citações para periódicos predatórios foi PLOS ONE (na qual não havia citações para periódicos predatórios, exceto a Revista E, citada em 17 artigos do PLOS ONE, embora nenhum desses artigos citados tenha sido publicado na Revista E após sua venda em 2014).
O Elsevier ScienceDirect continha 61 citações para a Revista E no total, 31 delas desde a venda. No entanto, desses 31 artigos nas revistas da Elsevier, 26 citaram artigos de pré-venda na E Magazine; Em dois casos, apenas resumos estavam disponíveis on-line, o que impossibilitou a determinação das datas de publicação dos artigos citados; Em três casos, as cotações eram de itens pós-venda. Em outras palavras, apenas 5 artigos nas revistas da Elsevier, no máximo, foram encontrados citando artigos da Revista E que foram publicados após sua venda. O resultado mais preocupante foi que o Web of Science continha 40 citações de artigos de pós-mercado publicados no Journal E.
De qualquer forma, a tabela acima representa boas notícias: periódicos predatórios sob revisão raramente foram citados em publicações legítimas indexadas por esses grandes compêndios de literatura acadêmica e científica.
Outro contexto em que esses dados devem ser considerados é o da produção dos próprios periódicos predatórios: por exemplo, um deles possuía 36% de seus artigos publicados, citados na literatura acadêmica geral; outro teve 25% de seus artigos citados. A Revista E teve apenas 6% de seus artigos pós-venda citados na literatura legítima - no entanto, como mostra a Figura 2, dada a prodigiosa produção desta revista durante os dois anos em análise, essa pequena porcentagem representa a maior número de artigos citados.
E é importante ter em mente que este estudo examinou apenas sete dos periódicos predatórios das mais de 12.000 dessas publicações no mercado .
Concluindo: os dados deste estudo de sete dos periódicos mais claramente predadores demonstram a capacidade desses periódicos de contaminar o discurso científico e acadêmico. Isso é claramente um problema.
No entanto, outras questões importantes ainda precisam ser resolvidas. Estes incluem
  • Qual é a magnitude real do problema? Qual a porcentagem dos artigos publicados pelas aproximadamente 12.000 revistas predatórias atualmente em operação representa uma investigação tão profundamente falha que seria rejeitada pelos editores e revisores competentes?
  • Desses artigos fundamentalmente defeituosos, quantos são citados em publicações legítimas? Qual é o impacto do problema no mundo real? Até que ponto a má ciência, disfarçada de boa ciência, prejudica a qualidade do discurso científico, a formação de políticas e os cuidados médicos?
Essas são questões urgentes que requerem mais investigações.


Fonte: Universo Aberto (Blog da Biblioteca de Tradução e Documentação da Universidade de Salamanca)  Confira aqui!!

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Resistência à ciência

Crise de confiança suscita debate mundial sobre como enfrentar ataques ao conhecimento científico!!
Dárkon VR

      A ciência vive uma crise de confiança. Em sociedades polarizadas, nas quais notícias falsas e teorias da conspiração se propagam com rapidez pelas redes sociais, o conhecimento científico tornou-se alvo frequente de ataques que reverberam em grupos com crenças ou interesses políticos ou econômicos contrariados – ou simplesmente com baixo letramento. Os efeitos desse fenômeno estão ressaltados em um levantamento publicado em julho e realizado em 144 países, inclusive no Brasil, para conhecer a visão, o interesse e o grau de informação sobre assuntos ligados à ciência e tecnologia (C&T). Executado pelo Instituto Gallup por encomenda da organização britânica Wellcome Trust, o estudo ouviu mais de 140 mil pessoas e verificou que, no caso dos brasileiros, 73% desconfiam da ciência e 23% consideram que a produção científica pouco contribui para o desenvolvimento econômico e social do país. Tal nível de descrédito não é uma exclusividade do Brasil e afeta nações desenvolvidas como França e Japão, onde 77% dos entrevistados também declaram desconfiar da ciência.
      O relatório Wellcome global monitor constatou ainda que a percepção e o engajamento dos brasileiros em relação à ciência são influenciados por crenças religiosas. Quase metade dos entrevistados disse que “a ciência em algum momento foi contra minhas convicções religiosas”, e, nesse grupo, três quartos afirmaram que “quando ciência e religião discordam, escolho a religião”. Tendência semelhante foi observada nos Estados Unidos, onde a ciência em algum momento confrontou as concepções religiosas de 59% dos entrevistados — destes, 60% ficaram com a religião.
      Os dados mostram que, em países desenvolvidos, a percepção sobre os benefícios da ciência é três vezes maior entre indivíduos que dizem levar uma “vida confortável” em relação aos que relatam enfrentar dificuldades. O nível de confiança nos cientistas também parece ter uma correlação com o coeficiente de Gini, índice que mede o grau de concentração de renda, nos países analisados. “Em países mais desiguais, as pessoas tendem a desconfiar mais da ciência do que em nações mais igualitárias”, escreveu Mark Henderson, diretor de comunicações da Wellcome Trust. Para Simon Chaplin, diretor de Cultura e Sociedade da organização britânica, as evidências em vários países sugerem que o descrédito na ciência tem relação com a reputação de outras instituições, como o governo e a Justiça. “É um alerta para todos que gostam de pensar na ciência como algo neutro e separado da sociedade em que vivemos.”

Infográfico e ilustrações Alexandre Affonso


      Tais resultados não surpreendem Yurij Castelfranchi, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Não se trata apenas de um movimento de negação de consensos científicos, mas de uma crise de legitimidade”, diz. “As pessoas desconfiam da ciência assim como desconfiam de outras estruturas de poder, como o governo, o sistema judiciário e a imprensa”, afirma o sociólogo e físico italiano, que há mais de uma década estuda como as pessoas pensam e consomem C&T no Brasil e na América Latina. “Era inevitável que esse sentimento coletivo reverberasse na ciência.”
      Desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a ciência ganhou destaque na elaboração de estratégias de desenvolvimento dos países. “A ciência era vista como um dos motores do progresso e da promoção da qualidade de vida no mundo, e no imaginário popular ascendeu ao posto de autoridade inquestionável e isenta de incertezas, conflitos e interesses”, diz Castelfranchi. Esse movimento levou à criação de agências de financiamento, como a National Science Foundation (NSF), nos Estados Unidos, em 1950, e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no Brasil, em 1951. O apogeu desse processo foi a corrida espacial entre os Estados Unidos e a extinta União Soviética, observa o filósofo Marcos Nobre, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). “Houve um aumento significativo dos recursos para a pesquisa, justificado pela necessidade de demonstração de força bélica e de um país sempre estar à frente do outro em termos tecnológicos para conquistar o espaço”, explica.
      O panorama começou a mudar no final na década de 1980, com o fim da Guerra Fria, quando a ciência buscou renovar sua base de legitimação social, sem o mesmo sucesso de antes. Nobre cita o caso do sequenciamento do genoma humano e diz que as sociedades não perceberam a aplicação dos resultados desse esforço de pesquisa como ocorreu na corrida espacial. “A ciência, com o projeto genoma, não alcançou o mesmo grau de adesão social obtido com a corrida espacial, e no momento em que ele foi lançado, em 1990, já havia uma erosão da acomodação de conveniência entre a ciência e o poder político, a qual, hoje, é abertamente denunciada como conluio”, destaca o pesquisador. O resultado, ele observa, é que a rejeição ao poder político, visto como uma instituição “corrupta” que não governa para todos, atingiu a ciência como se ela estivesse a serviço do poder estabelecido.
      Esse problema é notável no Brasil, como mostram os resultados do estudo Percepção pública da C&T no Brasil 2019, feito pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) por demanda do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Realizado periodicamente desde 2006, o levantamento mostra que os brasileiros sempre afirmaram se interessar por C&T, sobretudo por assuntos ligados à medicina e ao meio ambiente. Mais recentemente, porém, mostram-se mais críticos em relação à ciência e seus usos. Em sua última edição, a pesquisa entrevistou 2.200 pessoas de todas as regiões do país e constatou uma diminuição do percentual de indivíduos que consideram que C&T só trazem benefícios para a humanidade – de 54%, em 2015, para 31%, em 2019. Também verificou um crescimento dos que julgam que C&T produzem tanto benefícios quanto malefícios – de 12% em 2015, para 19%, em 2019. Registrou ainda uma redução na proporção dos que consideram os cientistas pessoas que fazem coisas úteis para a sociedade. Em 2010, esse número era de 55,5% dos entrevistados, em 2015 caiu para 52% e, em 2019, para 41%.
      A ideia de que a ciência pode ser movida por interesses privados também ganhou força. Cresceu o contingente de pessoas para quem os cientistas são indivíduos que servem a grupos econômicos e produzem conhecimento em áreas nem sempre desejáveis. “Ao mesmo tempo, observa-se que essa percepção mais crítica vem acompanhada de um desconhecimento sobre conceitos científicos básicos”, ressalta a historiadora Adriana Badaró, coordenadora do estudo do CGEE. Ela cita como exemplo o fato de 73% dos entrevistados acharem que os antibióticos servem para matar vírus, e não bactérias.
      Para o físico Marcelo Knobel, reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os dados são preocupantes e podem ajudar a explicar as ondas recentes de ataques às instituições de ensino e pesquisa do país. Segundo ele, o baixo nível de confiança da população na ciência e no trabalho dos cientistas, alinhado a um preocupante desconhecimento sobre o que é ciência e sua importância para o país, pode comprometer a estrutura do sistema de ensino e pesquisa nacional. “Os cortes recentes no orçamento da ciência ilustram esses riscos”, afirma Knobel, que vem mobilizando a comunidade da Unicamp contra os cortes e os ataques à ciência. “Fazer pesquisa de qualidade exige tempo e dinheiro e isso só é viável com apoio da sociedade.”

Infográfico e ilustrações Alexandre Affonso

      A visão da sociedade sobre a ciência está distorcida, observa Simone Pallone de Figueiredo, pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp. “Poucos, por exemplo, têm a dimensão de que as tecnologias que usamos todos os dias surgiram a partir de conceitos que levaram anos para ter uma aplicação prática em nossas vidas.”
Disfarçando as evidências

      As pesquisas da Wellcome Trust e do CGEE ajudam a compreender um processo histórico, mas não explicam o surgimento de movimentos que se opõem a evidências e consensos científicos em tópicos como mudanças climáticas, teoria da evolução ou eficácia das vacinas. Um trabalho liderado por Castelfranchi, ainda em desenvolvimento, pretende lançar luz sobre essa questão. Segundo sua percepção, não existe um movimento anticientífico, mas bolhas que rejeitam certas evidências e consensos, e que aceitam outros. “Os que se recusam a reconhecer que as mudanças climáticas estejam ligadas à ação do ser humano não são necessariamente os mesmos que defendem que a Terra é plana”, diz.

      Esses grupos, ele observa, são pequenos e sempre existiram. Fortalecidos por suas próprias fontes de informação e por interpretações equivocadas de estudos científicos, ganharam notoriedade com o poder de difusão da internet. É o caso da crença de que a Terra é plana, defendida em comunidades no Facebook que reúnem quase 80 mil pessoas no mundo. “Elas tendem a ser compostas por indivíduos com uma forma paranoica de pensar, que suspeitam de consensos políticos, sociais ou científicos”, diz Castelfranchi.
      As redes sociais constituem a principal ferramenta usada para disseminar essas ideias. “Os grupos contrários às vacinas no Brasil se alimentam de teorias da conspiração produzidas nos Estados Unidos e cresceram principalmente no YouTube”, destaca Dayane Machado, doutoranda do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp. Machado, que estuda os movimentos antivacina, esclarece que eles são antigos, mas ressurgiram com força a partir de 1998, quando o cirurgião Andrew Wakefield publicou na revista Lancet um trabalho indicando que a vacina tríplice viral estaria associada a casos de autismo em crianças. Estudos posteriores refutaram a conexão e, em 2010, uma década após a publicação do estudo, descobriu-se que Wakefield tinha ações de uma empresa que propunha o uso de uma vacina alternativa. O artigo foi retratado e sua licença médica foi cassada, mas o estrago estava feito.
      Curiosamente, a desconfiança em relação à segurança e eficácia das vacinas tende a ser maior nos países desenvolvidos. Segundo o estudo da Wellcome Trust, um terço da população da França afirmou não acreditar que a imunização seja segura. “O ceticismo sobre as vacinas não é fenômeno novo na França, mas notamos um aumento da desconfiança após a campanha de vacinação contra a pandemia de gripe em junho de 2009, durante a qual a Organização Mundial da Saúde [OMS] foi acusada de ter sido influenciada por empresas farmacêuticas”, comenta Imran Khan, da Wellcome Trust. A hesitação vacinal é considerada a principal responsável pelo aumento de 462% no número de casos de sarampo entre 2017 e 2018 naquele país. Apesar da queda recente nas taxas de imunização, a maioria dos brasileiros ouvidos na pesquisa disse confiar nas vacinas e acreditar que elas são “importantes para as crianças”. Tendência semelhante foi observada em outros países de baixa renda, como Bangladesh, na Ásia, e Ruanda, na África. Machado explica que vários fatores fortalecem os grupos antivacina, entre eles a ascensão da medicina alternativa, o repúdio à interferência do Estado nas escolhas individuais e as convicções religiosas.
      O debate sobre como as pessoas escolhem no que acreditar e por que algumas rejeitam consensos científicos é complexo e inconclusivo. Na avaliação do linguista Carlos Vogt, do Instituto de Estudos Avançados (IdEA) e do Labjor da Unicamp, movimentos negacionistas resultam do desconhecimento sobre o que é a ciência e como ela funciona. “A ciência é um método que nos permite identificar padrões por trás dos fenômenos da natureza e traduzi-los em leis gerais”, esclarece. O problema é que isso é pouco compreendido. “Poucos sabem que as pesquisas se baseiam em métodos, que seus resultados são submetidos à avaliação de outros cientistas da mesma área antes de serem publicados e que, se o forem, muito provavelmente serão reproduzidos por outros pesquisadores, que avaliarão se eles se confirmam ou não.” Para Vogt, é preciso entender que os resultados científicos são provisórios e suscetíveis de serem derrubados por experimentos ou observações futuras. “A verdade científica é eterna enquanto durar.”

Ilustrações Alexandre Affonso


Conservadorismo

      Muitas vezes, contudo, são as pessoas com mais conhecimento científico que contribuem para a polarização do debate sobre alguns tópicos científicos. Essa foi a conclusão de um estudo publicado em 2015 por Dan Kahan, professor de psicologia da Universidade Yale, nos Estados Unidos. No experimento, os participantes tinham de avaliar as ameaças das mudanças climáticas em uma escala de 0 a 10. Em seguida, o pesquisador cruzou as respostas com o nível de alfabetização científica de cada um. Kahan verificou que quanto mais os participantes conheciam a ciência e seus processos, mais radicais eram suas posições em relação aos efeitos das mudanças climáticas para um lado ou para o outro. Isso acontece porque muitas pessoas tendem a usar o conhecimento científico para reforçar crenças que elas já têm e que foram moldadas por suas visões de mundo.

      O papel do conservadorismo político no modo como os norte-americanos lidam com determinadas evidências científicas foi analisado em um estudo publicado em 2017 pela Pew Research Center, instituto especializado em pesquisas de opinião pública. Verificou-se que os eleitores do Partido Republicano, sobretudo os mais conservadores, tendem a desconfiar mais de notícias sobre mudanças climáticas, eficácia de vacinas ou alimentos geneticamente modificados. Uma hipótese para essa resistência estaria no aumento do uso de evidências científicas pelo governo para justificar medidas regulatórias em setores da economia a partir da década de 1970. “Qualquer evidência que reforce a necessidade de uma intervenção estatal na economia ou nas vidas das pessoas tende a ser vista com mais desconfiança por essa parcela da população”, diz Castelfranchi.
      O fenômeno é nítido nas discussões sobre as mudanças climáticas. O consenso entre cientistas sobre o aumento da temperatura global nos últimos 130 anos e o peso das atividades humanas nesse processo gerou uma participação mais efetiva dos governos na regulação da emissão de gases estufa. “Várias organizações financiadas pela indústria de combustíveis fósseis tentaram minar a compreensão do público sobre o consenso científico que havia sido alcançado sobre esse assunto, promovendo pesquisadores ‘céticos’, disseminando dúvidas e controvérsias”, afirma John Besley, pesquisador especializado em opinião pública sobre C&T da Universidade do Estado de Michigan, nos Estados Unidos. Esse movimento foi tão intenso que, segundo Besley, conseguiu fazer com que a mídia se sentisse compelida a relatar as opiniões de grupos contrários.
      O físico Paulo Artaxo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), lembra que o discurso negacionista sobre mudanças climáticas ganhou ímpeto na década de 1990, com o estabelecimento de acordos, convenções e leis que pretendiam mitigar os impactos do desenvolvimento econômico no meio ambiente. “Quando o presidente Donald Trump diz que não acredita nas mudanças climáticas, mesmo após ‘ler’ 1.656 páginas de um relatório respaldado por 300 cientistas acerca dos efeitos devastadores do aquecimento global para a economia, a saúde e o meio ambiente, ele deixa claro que irá atender os interesses políticos e econômicos dos setores que financiaram sua campanha”, diz o pesquisador.
      A União Europeia estuda como enfrentar essa onda e tem promovido discussões com base em um relatório elaborado em 2018 pelo Grupo de Peritos de Alto Nível sobre Notícias Falsas e Desinformação On-line. Direcionado aos países do bloco europeu, o documento sugere uma abordagem baseada em vários pilares, entre eles mais transparência por parte dos portais e provedores da internet; “alfabetização midiática e informacional” de jovens e adultos; e promoção de pesquisas acadêmicas sobre a desinformação.
      Para Marcos Nobre, o desafio que se coloca à ciência é o de dialogar mais com a sociedade. “A ciência precisa refazer sua plataforma de legitimação social e terá de ser absolutamente transparente para obter sucesso”, sugere. Ela também precisa mostrar para a sociedade que está aberta ao debate, mesmo com os que negam suas conclusões. “Do contrário, alimentará a ideia conspiratória de que tem um conluio com o poder”, conclui o pesquisador.

Fonte: Revista Pesquisa FAPESP     -     Confira aqui!!

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Presentes nas frutas, proteínas similares às do látex podem causar alergia

Entre as frutas que contêm essas proteínas estão mamão, figo, banana, abacate, kiwi e melão. Alérgicos ao látex devem ficar atentos!!

Mamão papaia – Foto: Sebástian Freire / Flickr

O fenômeno se chama “síndrome látex-fruta” e acontece porque algumas frutas, como mamão, figo, banana, abacate, kiwi e melão, têm em sua composição proteínas semelhantes àquelas presentes no látex da Hevea brasiliensis – a famosa seringueira. “A quimopapaína, por exemplo, encontrada no látex do mamão, pode provocar essa síndrome. A esse fenômeno chamamos reatividade cruzada. Tem gente que é alérgica à borracha [látex] e que também tem ou pode desenvolver alergia ao mamão, ao figo, à banana”, explica Gabriela Justamante Händel Schmitz, que estudou a reatividade cruzada em seu trabalho de doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP.
De acordo com ela, uma proteína do látex da seringueira, denominada cisteína protease, tem a sequência de aminoácidos muito similar à da quimopapaína. “Como elas são similares, em alguns indivíduos o organismo pode responder com essa reatividade cruzada. Se sou alérgica à borracha, usada para fazer uma luva, por exemplo, posso ser ou vir a ser alérgica a mamão – e também ao figo, à banana, ao abacate, ao kiwi, ao melão. Todos esses frutos têm proteínas similares às encontradas no látex da Hevea brasiliensis.”
A pesquisadora afirma que as pessoas alérgicas à proteína do látex da Hevea têm imunoglobulinas E (IgEs) específicas para essa proteína. “Se comem um mamão, que tem uma proteína similar à proteína da seringueira, a proteína do mamão consegue se encaixar nas IgEs sintetizadas para a proteína do látex da Hevea, e então o paciente tem todas as reações alérgicas que teria a artefatos feitos do látex da seringueira.”
Extração do látex na Hevea brasiliensis – Foto: https://pt.depositphotos.com/80829696/stock-photo-milky-latex-extracted-from-natural.html
Segundo ela, cada vez se descobrem mais proteínas similares às da seringueira em frutos. “Muitas crianças têm esse tipo de alergia, e o diagnóstico é difícil. Por isso, estamos indo atrás de novos alérgenos. Só do mamão há cinco alérgenos descobertos. E não fazemos ideia de quantos mais podem existir.”
A cientista conta que  muitos pacientes brasileiros têm alergia à mandioca e ao látex, há inclusive um estudo de um grupo do Hospital das Clínicas sobre isso.
O látex encontrado no mamão (principalmente na casca) contém uma enzima proteolítica chamada papaína, que tem funções bactericidas, anti-inflamatórias e bacteriostáticas, além de ser usada em medicamentos para auxiliar a digestão. “A papaína presente no látex do mamão é um alérgeno bem descrito dessa fruta, chamado Cari p papain. Porém, quem tem alergia a mamão pode ser alérgico a outras proteínas dele que ainda não foram descobertas”, afirma a pesquisadora.
Ela explica que a produção de látex é um mecanismo de defesa da planta contra predadores e situações de estresse. “O látex do mamão, assim como outras substâncias produzidas por diversas plantas, tem ação biológica. E, em quase todos os casos, essas substâncias são sintetizadas pela planta para a sua defesa, o que significa que são tóxicas para os predadores. Assim, em grandes quantidades, podem ser tóxicas para nós”, resume.

Fonte: JORNAL DA USP     -     Confira aqui!!

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

O Plano S: Rumo ao acesso aberto sem periódicos híbridos

O Plano S é uma iniciativa que visa obter acesso aberto total e imediato a publicações financiadas publicamente.
O Plano S  foi promovido pela cOALition S, um grupo de organizações importantes que financiam pesquisas (Wellcome Trust, Fundação Bill & Melinda Gates e agências nacionais de financiamento à pesquisa em mais de 10 países europeus ), coordenada por uma organização chamada Science Europe, uma associação europeia que representa os interesses de organizações públicas que financiam e realizam pesquisas na Europa.

Em setembro de 2018 e com o apoio da Comissão Europeia e do Conselho Europeu de Pesquisa (ERC), a COOTION S lançou o chamado Plano S. O momento do plano se deve a duas razões principais: uma, as agências de financiamento à pesquisa são mostradas para ver que muitos dos resultados da pesquisa que financiados terminam em periódicos pagos por assinatura e retardam o progresso da ciência, impedindo o acesso a publicações cuja pesquisa foi financiado com recursos públicos. Dois, por várias razões, os repositórios institucionais e temáticos, a via verde, também não conseguem que os pesquisadores depositem todas as suas publicações.

Ao vir a luz, o Plano S recebeu críticas duras dos grandes editores científicos, Elsevier ou Springer, entre outros, mas também de institutos e sociedades científicas, pequenos editores e até mesmo de grupos de pesquisadores. A Coalizão S decidiu então lançar, entre novembro de 2018 e fevereiro de 2019, um processo de consulta pública sobre o Plano, que recebeu mais de 600 comentários de mais de 40 países. Em 31 de maio de 2019, a Coalition S publicou o que é agora a versão final do Plano S. Um plano com 10 princípios, um guia de implementação e um único objetivo: acelerar a transição para abrir o acesso às publicações.

Fundamentalmente, devido à sua radicalidade em três aspectos: o tempo de implementação do plano, a cobertura do plano e sua rejeição ao modelo híbrido de publicação. O Plano S começa dizendo que, a  partir de 2021  (1º de janeiro), em pouco mais de um ano,  TODAS as  publicações resultantes de pesquisas públicas deverão ser publicadas em periódicos de acesso aberto, em plataformas de acesso aberto ou estar disponíveis imediatamente em repositórios de acesso aberto  sem período de embargoSe você é um pesquisador e recebe fundos públicos para sua pesquisa ou se trabalha em uma biblioteca universitária e precisa aconselhá-los, pense por um momento: você não poderá publicar em muitas revistas, com ou sem um fator de impacto, se a revista não estiver disponível em acesso aberto.

No campo da ciência, tecnologia e medicina (STM), pesquisadores e editores  argumentam contra o Plano S que, em muitas áreas, não há periódicos de qualidade com acesso abertoEm algumas áreas, nenhuma. Os editores justificam o pagamento da assinatura e os altos custos da APC porque seus processos de revisão e edição são de alta qualidade e isso se reflete em seu posicionamento nos diferentes rankings de revistas em um ambiente muito competitivo. Os editores relutam em mudar um modelo de negócios que funcionou muito bem para eles e que até agora provou servir à ciência e à sociedade. Pesquisadores nesse campo reclamam que seu sistema de avaliação e reconhecimento se baseia nesses rankings e, até o momento, não há alternativas para publicar em outras mídias. Se não puderem publicar nessas revistas, perderão competitividade.

Nessas áreas, além disso, a pesquisa e a captação de recursos geralmente são realizadas por equipes internacionais. O Plano S é uma iniciativa europeia. É verdade que a União Europeia, China e Índia parecem apoiar o Plano S, mas nos Estados Unidos, o Escritório de Políticas de Ciência e Tecnologia (OSTP) deixou claro que não apoiará o Plano S  (Instituto Americano de Física, 2019) , para que problemas possam começar a ocorrer: americanos que desejam publicar em revistas com modelos de acesso atrás de revistas ou plataforma de pagamento e europeus incapazes de contribuir financeiramente para a divulgação de resultados por esses meios. Portanto, há  pesquisadores da STM reclamando que o Plano S pode afetar o grau de colaboração científica internacional .

No campo das ciências sociais e humanas (SSH), as críticas não são menores: muitas revistas não pertencem a grandes grupos editoriais, mas representam o esforço de pesquisadores de departamentos de universidades, sociedades científicas ou pequenas e médias editoras que eles encontraram no modelo de negócios de publicação híbrida uma maneira de sobreviver quando o acesso aberto diminuiu as assinaturas de suas publicações. Dupla sobrevivência porque permite que editores e pesquisadores sobrevivam. Nessas revistas, os custos da APC são aceitáveis ​​para pesquisadores cujas publicações são resultados de pesquisas não financiadas com recursos públicos, principalmente no campo da SSH. E, no entanto, apesar da falta de recursos, O sistema de reconhecimento e avaliação de mérito é baseado no mesmo ranking de revistas de sempre. Ao não permitir a publicação nesse tipo de periódico, as possibilidades de avançar na carreira científica, principalmente as mais jovens, são seriamente diminuídas. E pequenos editores ou sociedades científicas temem que, se passarem de um modelo híbrido de revista para um modelo de revista em que os autores paguem para publicar o número de autores que podem arcar com os custos da APC não sejam suficientes para manter os negócios.

Muitos também temem que, ao optar por um modelo que pague mais pelo pagamento da publicação do que pelo acesso, as barreiras indiretas possam ser promovidas indiretamente para tornar mais visível a pesquisa realizada nos países menos desenvolvidos. Ou seja, deixar de não ser capaz de acessar muitas publicações para não poder publicar porque os custos das revistas da APC não podem ser permitidos. E que, no final do modelo híbrido, existem poucas publicações alternativas para pesquisadores que não obtêm grandes quantias de financiamento, o que é especialmente o caso em áreas de ciências sociais e humanas, muito mais em países menos desenvolvidos, onde o compromisso de As plataformas de acesso gratuito que foram feitas agora podem ser deixadas em papel úmido.

Se o Plano S tem tantas críticas, pode-se perguntar as razões ou o interesse em sua implementação. Um plano nada mais é do que o conjunto de idéias e meios para atingir uma meta. E o objetivo é a chave: alcançar acesso aberto completo e imediato a publicações financiadas com recursos públicos. Nem repositórios, nem revistas, onde os financiadores passaram de pagar pela leitura (acesso) a pagar pela leitura e publicação, estão obtendo acesso aberto ao conhecimento. Então, para conseguir isso, é necessária alguma mudança.

Alguns aspectos a considerar, extraídos do guia de implementação do Plano S:
  • Apoia, sem ambiguidade, os princípios da Declaração de São Francisco sobre a avaliação da pesquisa (DORA). De fato, o princípio 10 garante que os signatários comprometam-se a: ao avaliar os resultados da investigação durante as decisões de financiamento, avaliarão o mérito intrínseco do trabalho e não considerarão o canal de publicação, seu fator de impacto (ou outras métricas de revistas) ou ao editor. Para quem não conhece a importância do DORA, é basicamente uma crítica ao fator de impacto “como uma medida da qualidade científica da pesquisa em um artigo” 
  • O Plano incentiva a idéia de que também os dados de pesquisa e outros resultados de pesquisa são "o mais aberto possível, o mais fechado possível".
  • Embora atualmente apenas se aplique a publicações revisadas por pares, esclarece que no futuro também se aplicará a monografias e capítulos de livros.
É verdade que, com ansiedade, porque os grandes editores não continuam a aumentar de maneira exagerada, como têm feito, seus benefícios às custas do dinheiro público geram riscos que pequenos editores e sociedades científicas podem "ficar para trás" ou mesmo desaparecer. Mas o plano também contempla a injeção de fundos no sistema para impedir que isso aconteça. Isso é feito na seção "acordos de transformação". Os acordos transformadores entre editores e bibliotecas ou consórcios de bibliotecas são aqueles que buscam alterar o pagamento da assinatura de revistas (o que há até agora) para modelos em que o acesso é aberto. Um exemplo simples: nos contratos de modelo de publicação e leitura, o editor recebe pagamento apenas pela publicação de artigos pelos autores de uma instituição e a leitura dos periódicos desse editor é incluída sem custo adicional para as instituições . Leremos e ouviremos muito sobre esses acordos transformadores nos próximos meses.

O Plano S visa alcançar uma ciência mais aberta, não apenas com um sistema de publicação com maior transparência de custos e preços, mas também um sistema científico aberto que permita modificar o sistema de avaliação e promoção dos cientistas, alterando o status quo do "Ditadura" do fator de impacto, contra o qual muitos rugem e poucos fazem algo para mudá-lo. E nesse papel, os pesquisadores, muito afetados, também devem se conscientizar de uma só vez. E, ao mesmo tempo, os bibliotecários assumem os novos desafios que lhes são apresentados: o guia técnico e de requisitos do Plano S fala de identificadores persistentes, de repositórios que precisam atender a certos requisitos técnicos a serem considerados em conformidade com o Plano, de preservação Metadados digitais de qualidade a longo prazo, dados vinculados etc. E também, Está abalando todo o ecossistema editorial. Por exemplo, em junho de 2019, a revista PLOS Biology propôs a implementação do Plano U, cujo principal objetivo é "que as agências de financiamento de pesquisa estabeleçam um requisito obrigatório para os fundos concedidos para a publicação dos resultados nos servidores de pré-impressões".

Certamente, o Plano S apresenta riscos, não esclarece quanto ou quais recursos serão alocados para ajudar esses acordos transformadores. E, em sua intenção de forçar não apenas o acesso aberto, mas a reutilização de informações, exige que os autores ou suas instituições mantenham os direitos autorais de suas publicações e apliquem uma licença aberta ao seu trabalho, de preferência a licença de atribuição Creative Commons (CC By )  e obriga que as licenças CC BY-ND, tão importantes para impedir a "manipulação" de certos empregos nas ciências sociais e humanas, tenham quase que implorar. Mas ... sem riscos, você não vai longe.