DESTAQUE

Publicação de estudos científicos

Caros leitores, A Journal Health NPEPS (ISSN 2526-1010) é uma revista científica produzida pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNE...

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Como a indústria dos artigos científicos trava o avanço da ciência

Exigências burocráticas e uma cultura que privilegia a quantidade em vez da qualidade levam cientistas à exaustão – e à malandragem – para garantir bolsas de pesquisa.


O tcheco Ján Hoch tinha 16 anos em 1940, quando perdeu a família nas câmaras de gás de Auschwitz. Sem lenço e sem documento, alistou-se em um contingente de exilados do exército inglês, mudou de nome para Robert Maxwell e combateu na 2ª Guerra Mundial. Ao final do conflito, ganhou condecorações e cidadania britânica. Acabou destacado para uma base na Berlim ocupada.

O militar não sabia, mas sua temporada na capital alemã o tornaria um milionário – e mudaria a história da ciência. Lá ele conheceu a Springer, uma editora alemã fundada em 1842. Eles eram especialistas em publicar artigos científicos: os textos que todo pesquisador precisa escrever para divulgar seus experimentos, descobertas e resultados de pesquisa.

Investir nesse ramo em um continente destruído não é um jeito óbvio de ganhar dinheiro. Maxwell, porém, enxergou longe: percebeu que a ciência iria bombar no pós-guerra. Os governos, afinal, já tinham percebido que, quanto maior o avanço nos laboratórios, maior a vantagem no front (a bomba atômica, filhote da Teoria da Relatividade, que o diga). Então não faltaria dinheiro público para as pesquisas. Além disso, era óbvio que os cientistas britânicos precisariam cada vez mais de notícias sobre a ciência que estava sendo feita em outros países – a começar pela própria Alemanha, onde ele estava.

Maxwell acionou sua rede de contatos e em dois tempos se tornou distribuidor oficial de artigos científicos da Springer no Reino Unido e nos EUA. A sacada foi tão lucrativa que em 1951 ele já tinha capital e contatos para fundar sua própria editora, agora em território britânico – a Pergamon Press. Maxwell prosperou, criou um império midiático e passou décadas nas listas de homens mais ricos da Inglaterra.


      
70 artigos científicos em 10 anos: É o que um cientista brasileiro da área de Farmácia precisa publicar para chegar ao topo da carreira. Nem um Isaac Newton teria chance nesse modelo. A solução? “Fatiar” uma única descoberta em vários artigos. Diluindo, rende mais. Marcio Moreno/Superinteressante

Mas o grande legado do magnata não foi exatamente a Pergamon. Foi ter criado um modelo de negócios extremamente lucrativo. E que ainda dá um belo dinheiro: a editora Elsevier – que comprou a Pergamon em 1991 e hoje é a maior editora de literatura científica do planeta – lucrou US$ 1 bilhão sobre um faturamento de US$ 2,7 bilhões, margem de lucro de 36,7%, maior que o do Google (26,5%).
Só tem um detalhe: essa indústria pode ser péssima para a ciência. É o que vamos ver a seguir. 

De Newton à Nature

Na ciência, não basta descobrir, é preciso contar aos outros o que você descobriu. Copérnico, Galileu e Newton, por exemplo, escreviam livros técnicos, relatando suas experiências e resultados. Com o tempo, a divulgação passou a acontecer menos por livros e mais por artigos científicos – peças curtas, publicadas em revistas e periódicos especializados.
As primeiras revistas científicas, lá no século 18, não tinham fins lucrativos. Mas com o aumento dos investimentos públicos nos laboratórios, a partir da década de 1950, as universidades passaram a ter muito mais pesquisadores. São todos funcionários com carteira assinada, que precisam mostrar serviço – e que recebem avaliações de desempenho.
Pois bem. Para fazer essas avaliações, a comunidade acadêmica adotou basicamente dois critérios: a quantidade de artigos científicos publicados em revistas – um suposto sinal de produtividade e dedicação – e o número de vezes em que esses artigos são citados em outros artigos – o que, em teoria, é uma evidência de que o trabalho foi relevante e influente.
Os cientistas não querem lucro, só divulgação. Então entregam o material de graça. Na outra ponta da equação, há as universidades, que não têm outra opção a não ser pagar o que as editoras pedem para ter acesso às pesquisas mais importantes (afinal, um pesquisador só consegue trabalhar se puder ler o trabalho de outros pesquisadores). Isso deu origem a um modelo de negócio sem igual: você, dono da editora de periódicos científicos, recebe conteúdo de graça e vende a um público disposto a pagar muito.
“Quando os cientistas passaram a ser avaliados por produtividade, eles tiveram de publicar mais”, diz Fernando Reinach, ex-biólogo da USP. Empresários como Maxwell farejaram o bom negócio – pegar de graça do governo [que financia as pesquisas] para vender de volta para o governo [que financia as universidades] – e mais do que isso: perceberam que era fácil incentivá-lo com um empurrãozinho.
O empurrãozinho, no caso, foi criar grifes da ciência: periódicos muito seletivos, que só publicam a nata das pesquisas. Sair em títulos como Cell, Nature ou Science dá visibilidade e é bom para a carreira dos cientistas. Outro estímulo para o lucro foi criar uma maré de revistas extremamente especializadas, que abarcavam todos os nichos da ciência – até os que ainda nem existiam. 
“Quando um periódico fica famoso, ele cria um monopólio em sua área. Se há um periódico de um determinado campo [de pesquisa], todas as bibliotecas universitárias precisam ter uma assinatura”, explica Neal S. Young, chefe do setor de Hematologia do Instituto Nacional de Saúde (NIH) dos EUA. “Com isso, as editoras podem cobrar preços muito altos.” A própria Elsevier tem 2,7 mil títulos – entre eles Revascularização Cardiovascular e o Periódico Internacional de Adesão e Adesivos.
As bibliotecas, com orçamentos na casa dos milhões de dólares, se entupiram de revistas especializadas. Em 1988, Maxwell afirmou que, com a internet e o fim dos custos de impressão, as editoras científicas lucrariam mais ainda. Acertou.
“Na era digital, a figura da editora científica é ainda mais importante”, afirma Dante Cid, vice-presidente de relações acadêmicas da Elsevier no Brasil. “Ela inibe a disseminação de informações equivocadas e colabora com a distribuição da pesquisa de qualidade.”
De fato, os padrões de excelência da Elsevier e de outras editoras de peso continuam altos. Mas o sistema causa distorções. “Um Newton da vida, que passava a vida toda trabalhando e publicava pouco, não teria chance no século 21”, diz Fernando Reinach.

2,7 mil: É o número de revistas científicas de uma única editora, a Elsevier. São títulos ultraespecializados, como “Periódico Internacional de Adesão e Adesivos” e “Revista da Sociedade da Fertilidade do Oriente Médio”. Marcio Moreno/Superinteressante

Masturbação acadêmica

Hoje, para um cientista brasileiro da área de Farmácia receber a classificação máxima (1A) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq, ele precisa ter publicado 70 artigos científicos nos últimos dez anos. Ou seja: ele é obrigado a tirar um avanço científico do chapéu a cada dois meses.
Como a classificação de um cientista no CNPq define quanto dinheiro ele pode receber para suas pesquisas, surge a mentalidade do “quanto mais, melhor”. A quantidade bruta de artigos passa a valer mais do que a criatividade e a originalidade de cada um. Os pesquisadores, sob pressão, se preocupam mais em bater metas do que em produzir boa ciência. “É aflitivo”, resume Kenneth Camargo, professor de saúde coletiva da UERJ e editor de revistas científicas. “Para conseguir promoções na carreira e recursos de pesquisa, você é induzido a publicar o tempo todo. E isso gera expedientes eticamente discutíveis.”
Um desses expedientes é o “pedágio”: você, cientista, exige ser creditado como autor em alguma pesquisa que tenha usado equipamento do seu laboratório – mesmo que você nem tenha participado do estudo. Outro é a “ciência salame”: fatiar uma pesquisa longa, que deveria ser apresentada de uma vez só, em vários pequenos artigos com conclusões parciais – o que aumenta o volume de produção e a classificação acadêmica do autor.
Uma consequência do salame é que o impacto científico de cada artigo diminui. E aí surge um problema: não basta publicar muito. Suas publicações também precisam servir de referência para pesquisas futuras no mesmo assunto. Se seu trabalho é fragmentado e inconclusivo, outros cientistas não terão motivo para consultá-lo.
É fácil verificar essa infestação de artigos pouco relevantes nos números. Um estudo feito por Sidney Redner, da Universidade de Boston, revelou que, dos 353  mil estudos publicados entre 1893 e 2003 na Physical Review, apenas 2 mil (0,56%) tiveram mais de cem citações. Oitenta e quatro mil (24%) foram citados só uma vez.
O número de citações, porém, também adiciona pontos de desempenho. Então não vale a pena fazer um monte de salames, certo? Não: os pesquisadores criaram artifícios para obter citações do nada. É o caso dos “clubes de citações”. Você força a barra no seu artigo para citar trabalhos dos colegas. Os colegas sabem que você faz isso por eles, e também dão um jeito de citar seus artigos pouco relevantes. Pronto, está formado o clube. Também há as autocitações: você chega e cita a si próprio. Masturbação acadêmica.

Pagou, passou

Se nada da lista acima der certo, ainda há as revistas científicas do tipo “pagou, passou.” Esse nicho de mercado surgiu na última década, com intenções boas: as gigantes, como Nature e Science, ofereceram aos pesquisadores a opção de pagar pelos custos de publicação de seus artigos. Assim, o conteúdo fica disponível gratuitamente na internet, sem paywall ou assinatura – colaborando com a democratização da ciência.
Era só uma transferência do custo de publicação: parar de cobrar do leitor e passar a cobrar do autor, sem diminuir as exigências de qualidade. Mas é claro que a fronteira entre pagar para liberar o acesso à pesquisa e pagar para conseguir publicar um artigo péssimo é tênue, para dizer o mínimo. Tanto que surgiu um mercado paralelo de revistas picaretas, que topam qualquer negócio.
Jeffrey Beall, bibliotecário da Universidade do Colorado, estima que entre 5% e 10% dos artigos open access tenham sido publicados por periódicos que nem leem o material enviado por pesquisadores desesperados – e cobram centenas de dólares por essa conveniente vista grossa.
Em 2014, para fazer um teste bem-humorado, o cientista da informação australiano Peter Vamplew enviou a uma dessas publicações caça-níqueis um artigo falso intitulado Get Me Off Your Fucking Mailing List (em bom português, “me tire da sua p**** de lista de e-mails”). A coisa consistia, dos gráficos à conclusão, no pedido do título repetido 870 vezes.
Algumas semanas depois, recebeu a resposta da revista – que, apesar do site de aparência amadora, leva o pomposo nome de Periódico Internacional de Tecnologia Computacional Avançada: os editores pediram algumas “referências a mais”. De resto, tudo ótimo: Me tire da sua p**** de lista de e-mails foi aprovado para publicação.
Esse arsenal de truques deixa claro: publicar com qualidade e em quantidade ao mesmo tempo é impossível. “A boa ciência, que é de fato inovadora, sempre foi rara”, afirma Kenneth Camargo. “Muita gente trabalha, mas as grandes contribuições são agulhas no palheiro. Com essa maré de artigos científicos, você multiplica os palheiros, mas não as agulhas.”
Por outro lado, avaliar ciência sem usar números não é tarefa fácil. Mesmo o CNPq tem consciência de que quantidade não é sinônimo de qualidade. Acontece que não há uma maneira objetiva de medir criatividade e inovação. No final do dia, as bolsas ainda precisam ser distribuídas e os professores ainda precisam ser contratados de acordo com seus méritos. As universidades concordaram que citações e artigos são o melhor jeito de fazer isso – e as editoras pularam dentro. Mesmo assim, não falta quem nade contra essa corrente.

Robin Hood na pós

Em junho deste ano, aos 28 anos de idade, a pesquisadora Alexandra Elbakyan, nascida no Cazaquistão, foi condenada pela Justiça americana a pagar US$ 15 milhões à Elsevier. A ativista começou uma carreira promissora na neurociência, mas não tinha verba para consultar as dezenas de artigos científicos que precisava para sua pós-graduação. Se uma universidade não assina um determinado periódico, o pesquisador precisa desembolsar em média US$ 30 para acessar um único artigo por apenas 48 horas. Salgado.
Dante Cid, da Elsevier, justificou à SUPER que os preços altos são reflexo da enorme operação da editora – que emprega 7,5 mil pessoas em 12 países e publica 16% de todas as descobertas do mundo.
Seja como for, Alexandra Elbakyan estava em busca de uma solução para o bolso dos cientistas. Descobriu, então, que vários deles usavam fóruns na internet para compartilhar senhas e assinaturas de periódicos. Inspirada pelo método, em 2011 criou o Sci-Hub: um banco de artigos pirateados que contém 64,5 milhões de arquivos – tudo alimentado por senhas fornecidas anonimamente.
“O Sci-Hub é para a ciência hoje o que o Napster foi nos anos 1990”, avalia Marco Mello, professor de ecologia da UFMG. “Se ele não tivesse aparecido, a indústria da música não teria se reinventado. Essas iniciativas estão forçando o sistema a se repensar.”
Elbakyan se exilou e está fora do alcance da Justiça americana, mas o Sci-Hub continua no ar, hospedado em domínios exóticos como o das Ilhas Cocos (.cc). De que a iniciativa é ilegal, não há dúvida. Mas sua popularidade silenciosa entre acadêmicos é um sintoma da frustração com o status quo da publicação científica. Dá para entender por quê.

Bruno Vaiano - Super Interessante

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Springer Nature retira mais de 33 artigos por plágio, críticas falsas e roubo de pré-impressões

De acordo com as informações fornecidas por Retraction Wacth , uma revista Springer Nature removeu 33 artigos, 29 de uma edição especial e quatro de outra, para obter uma lista exaustiva de pecados de publicação, de falsas críticas a plágio e roubo de não-manuscritos. Publicados.
E uma revista Elsevier removeu recentemente dez artigos em duplicado de dez dos artigos da revista Springer Nature.
A Springer Nature, ferramentas e aplicativos multimídia (MTAP) fez o seguinte anúncio:
"O editor-chefe retirou este artigo que foi publicado como parte da edição especial" Segurança de dados em modelagem multimídia "porque seu conteúdo foi duplicado de um manuscrito não publicado enviado por um grupo diferente de autores. Além disso, há evidências para sugerir manipulação da autoria e uma tentativa de subverter o processo de revisão por pares. O autor Luming Zhang declarou em nome de todos os co-autores que eles concordam com essa retratação. ”
As revistas Springer Nature retiraram quase 300 artigos para uma revisão por pares falsa .
Aqui estão alguns "destaques" das 33 retrações, ocorridas entre maio de 2019 e hoje, reunidas na edição de abril de 2020:
  • 29 foram associados a uma revisão por pares falsa
  • 24 foram associados a problemas de autoria (ou seja, manipulação de autoria)
  • 19 envolveram plágio e / ou duplicação
  • 12 artigos foram plagiados a partir de manuscritos não publicados
  • Todos os artigos foram escritos por pesquisadores da China, um deles em colaboração com autores do Japão.
  • Um autor - Caiyou Zhang - tem cinco retratações
  • Cinco autores - Chao Xiong, Hongwei Du, Xia Han, Yuan Li e Zepeng Wang - têm quatro retratações
  • Cinco autores - Bo Dai, Feng You He, Hu Zhen-tao, Tengfei Wu e Yiyang Yao - têm três retratações
Os documentos originais apareceram entre janeiro de 2017 e fevereiro de 2018 e envolveram um total de 72 autores, dois dos quais editores de uma das edições especiais "Gerenciamento de dados fracos em várias fontes sob Big Data": Yiyang Yao, da filial de informações e telecomunicações da Companhia de Energia Elétrica do Estado de Zhejiang, na China, e Luming Zhang; da Universidade de Tecnologia de Hefei, China.
A Tumor Biology, outra revista fundada por Springer, anteriormente lembrava  107 artigos  publicados entre 2012 e 2016 devido a fraudes na revisão por pares. Os artigos marcados foram escritos por 524 pesquisadores de 125 instituições da China, Japão, Estados Unidos e Canadá.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

⚠️ ATENÇÃO: Participe desse bate papo ⚠️


A Journal Health NPEPS realizará um bate papo em seu instagran sobre "Cuidados em saúde e enfermagem em tempos de pandemia".

Para isso, clique aqui e siga o perfil da revista!! 



terça-feira, 28 de abril de 2020

HORA DE DISTÂNCIA FÍSICA E SOLIDARIEDADE TOTAL

A pandemia de Covid-19 atingiu simultaneamente 156 países, em março, com a maior concentração de novos casos na Europa. No Brasil, mesmo com a vantagem de um sistema de saúde público e gratuito, as recomendações de distanciamento social e trabalho remoto esbarram numa realidade desigual de condições de moradia, trabalho e renda. Pesa também o contexto mundial, mais agudo aqui, de desvalorização do conhecimento científico e desrespeito a direitos humanos e sociais, resultando em ignorância, oportunismo e mais exclusão. Felizmente, ainda há solidariedade, como a dos profissionais da saúde, que se arriscam na linha de frente dos atendimentos e têm sido aplaudidos pela população.
Desinformação intencional virou problema de saúde pública. Desfazer o estrago que causam as fake news consome tempo e energia que deveriam ser direcionados à aproximação da população com especialistas da saúde, para que a realidade e as necessidades sociais interajam com o conhecimento, as orientações e as regulações sanitárias. Em três meses, a Fiocruz recebeu mais de 500 solicitações da imprensa para entrevistas. Em março, 40 por dia. Desde janeiro, 450 mil exemplares da Revista Radis chegaram às mãos dos leitores e o Portal Fiocruz, com bastante conteúdo sobre coronavírus, teve 3,3 milhões de acessos.
Profissionais de comunicação da Fiocruz querem promover diálogo entre os saberes técnico-científico e popular. É o caso de Pauliran Freitas, ao contar nesta edição suas aventuras atrás das câmeras em reportagens e documentários que têm como protagonistas suas paixões: o SUS e o povo. O repórter cinematográfico dedicou 47 dos seus 65 anos ao serviço público e ainda fala com entusiasmo sobre o futuro da comunicação e saúde.
Supostamente distante de tudo, a população ribeirinha da região amazônica vive no epicentro do processo de destruição socioambiental movido por agronegócio, mineração e grandes projetos não sustentáveis que reduzem a floresta, contaminam a água, ameaçam populações tradicionais e invadem reservas naturais, indígenas e quilombolas. É uma população que precisa muito do SUS. Em reportagem, o editor Adriano De Lavor mostra o difícil e belo trabalho de uma equipe multiprofissional numa Unidade Básica de Saúde Fluvial do município de Tefé/AM. A embarcação percorre as comunidades tratando cada grávida, cada criança, cada senhor ou senhorinha “como gente”, diz um dos ribeirinhos.
Respeito ao cidadão é o foco de Luiz Felipe Stevanim na matéria sobre como as informações pessoais digitais são hoje objeto de comércio e controle por parte de corporações e governos, com riscos à privacidade e à saúde. Luiz Felipe substitui como subeditor Bruno Dominguez, que deu enorme contribuição à revista, desde 2006. Outro colega que segue para novos desafios é Jorge Ricardo Pereira, que organizou e digitalizou todo o acervo do Programa Radis. Aos queridos Bruno e Jorge, nosso reconhecimento e agradecimento.
Em meio à crise sanitária, voltam a circular propostas de reduzir os salários já defasados de servidores como os professores, que formam nas escolas e universidades públicas os profissionais que se dedicam a estudar os fatores biológicos, sociais, econômicos e ambientais que determinam os processos de novas e antigas doenças. Por que reduzir salários de servidores como os pesquisadores e técnicos que, em tempo recorde, sequenciaram o genoma do coronavírus, desenvolveram tecnologia de diagnóstico, treinaram equipes brasileiras e sul-americanas para as testagens, trabalham em turnos ininterruptos para produzir milhões de kits para o SUS? Como reduzir ainda mais os salários de enfermeiros, médicos, técnicos, agentes e demais profissionais de saúde que cuidam das pessoas que estão sendo atingidas, com alto risco de se contaminar, trabalhando em condições inadequadas, dada a redução de investimentos no SUS, exercendo jornadas extenuantes, muitos deles mantendo-se afastados de seus lares para não contaminar suas famílias? Um jornal de decrescente circulação e baixíssimo compromisso social chegou a publicar editorial apoiando essa ideia, tão perversa quanto inócua para enfrentar a pandemia.
Em afronta a direitos e à situação de desemprego que desalenta as famílias brasileiras, cogitou-se autorizar a suspensão de contratos de trabalho e a suspensão ou redução de salários dos trabalhadores da iniciativa privada, na contramão do que todos os demais países estão fazendo. Que tipo de gente, em sã consciência, pensaria em penalizar e desproteger ainda mais os trabalhadores na iminência de uma doença? No país que destina cerca de 50% do orçamento da União para pagar sem questionar os juros e encargos de uma dívida pública nunca auditada, como já pontuaram diversos entrevistados em edições anteriores, por que não alocar no SUS e no enfrentamento à pandemia os recursos do pagamento dessa dívida e suspender os perversos efeitos do congelamento por 20 anos dos “gastos” com os serviços públicos a que a população tem direito e tanto precisa nessa hora?



Rogério Lannes,

RADIS Comunicação e Saúde - FIOCRUZ

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Cientistas brasileiros capturam o momento exato em que o COVID-19 infecta uma célula

As imagens mostram o comportamento dos patógenos do vírus enquanto alteram o citoplasma de uma célula de linhagem "vero".



A imagem do microscópio mostra a formação de um ponto preto que corresponde ao patógeno COVID-19. (EFE)



Cientistas brasileiros capturaram imagens do exato momento em que o novo coronavírus (COVID-19) infecta uma célula, informou na quarta-feira a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Brasil , o maior centro de pesquisa médica da América Latina.

As fotografias foram tiradas com um microscópio eletrônico de transmissão durante um estudo sobre a replicação viral do SARS-CoV-2 e mostram em detalhes o processo de contaminação de uma célula, anunciou a Fiocruz em comunicado.
Para isso, pesquisadores da Fiocruz, órgão vinculado ao Ministério da Saúde do Brasil, infectaram células da linhagem "Vero", frequentemente utilizadas para testes in vitro e culturas de células, com o coronavírus, causador da doença de COVID-19.
Em um dos instantâneos, observa-se uma série de manchas escuras, que na verdade são partículas virais do patógeno, tentando infectar o citoplasma da célula, dentro do qual está o núcleo, responsável por armazenar seu material genético.
Cravos pretos são patógenos da SARS-CoV-2, enquanto tentam infectar o citoplasma das células.  (EFE)
Cravos pretos são patógenos da SARS-CoV-2, enquanto tentam infectar o citoplasma das células. (EFE)
Em uma segunda imagem, o coronavírus inicia o processo de infecção e, finalmente, em outra injeção, as partículas virais dentro da célula já são visualizadas.
Nesse momento, o patógeno do vírus já infecta as células.  (EFE)
Nesse momento, o patógeno do vírus já infecta as células. (EFE)
O registro é inédito no Brasil e faz parte de uma investigação que estuda como o novo coronavírus se reproduz e que é conduzida por cientistas do Laboratório de Morfologia e Morfogênese Viral e do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo.
O Brasil é o país latino-americano mais afetado pela nova pandemia de coronavírus, com 706 mortes e 14.275 casos confirmados até quarta-feira.
Segundo o Ministério da Saúde, que prevê que o pico chegue entre abril e maio, os dados mostram uma taxa de mortalidade de patógenos no país sul-americano de 4,9%.
O estado de São Paulo, o mais rico e mais populoso do Brasil, com cerca de 46 milhões de habitantes, é a região mais atingida, com 371 mortes e 5.682 infecções.







sábado, 11 de abril de 2020

ABEC Brasil e Ibict lançam repositório de preprints


Nos próximos dias, a Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC Brasil) e o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) lançarão um repositório de preprints pioneiro, voltado para revistas científicas. Batizado de EmeRI – Emerging Research Information – o repositório parte de uma demanda de editores científicos, em meio à urgência de divulgar resultados de pesquisa sobre o novo coronavírus.original.
“Na concepção original, repositórios são alimentados por autores.  As revistas não têm tal recurso à disposição e não têm como oferecer a informação nesse estágio intermediário, entre a aprovação na revisão inicial de conformidade e a tramitação pelos pareceristas científicos e a preparação editorial. O EmeRI inova, ao oferecer essa possibilidade”, afirma Piotr Trzesniak, Secretário-Geral da ABEC Brasil e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
“O apoio da equipe de Coordenação Geral de Pesquisa e Manutenção de Produtos Consolidados do Ibict, comandada por Bianca Amaro, está sendo fundamental nessa rápida viabilização do projeto”, conclui. 
O preprint é um artigo que ainda não passou pela tradicional avaliação por pares – que pode levar vários meses – mas que mesmo assim é disponibilizado para acelerar o acesso à informação. Atualmente, não há um servidor centralizado que permita às revistas científicas a publicação de preprints.
O EmerRI se propõe a ser uma plataforma aberta para revistas científica de todo o mundo, não apenas do Brasil, mas sempre com um olhar carinhoso para os países cientificamente emergentes. 
Será alimentado pelos próprios editores. Os preprints deverão ter passado pelo processo de desk review – aprovados para prosseguir para a etapa de revisão por pares -, segundo o critério de cada revista, além de ter a autorização dos autores.
A proposta surgiu há cerca dez dias e será lançada com a expectativa de contar com colaboração de toda comunidade ligada à produção e editoração científica para a alimentação, bem como para avaliação e sugestões que possam ajudar o aperfeiçoamento da plataforma.
Mais informações serão compartilhadas em breve.

terça-feira, 31 de março de 2020

COVID-19 E DEPENDÊNCIA CIENTÍFICA



Dependência cultural, como refletido em publicações científicas

A pandemia do vírus SARS-CoV-2 responsável pelo Covid-19 destaca a necessidade de cada país ter dados, análises e pesquisas científicas confiáveis, produzidos a partir de diferentes áreas do conhecimento, e que circulam rapidamente pelos espaços de entrada. de decisões, para contextualizar as políticas.
Mas essa necessidade de autonomia no processo de publicação e distribuição de pesquisas científicas cristaliza o efeito prejudicial dos incentivos simbólicos e econômicos por parte dos Estados para que essas pesquisas sejam publicadas em inglês, em periódicos com alto "fator de impacto", gerenciado, editado e distribuído por grandes redes comerciais na indústria científica.
Essas empresas multinacionais não financiam as investigações, nem pagam royalties àqueles que participam da cadeia de produção, mas pelo contrário: cobram quantias significativas pela edição e publicação de um artigo (que excede US $ 3.000) e depois coletam acesso a esse conteúdo. Portanto, os Estados financiam a pesquisa, alocam fundos para pagar as taxas de publicação e adquirem acesso à programação completa de cada uma dessas empresas. Os números publicados em algumas pesquisas sobre estimativas de valores gastos pelos países industrializados mostram que a Alemanha, por exemplo, em 2013 gastaria US $ 140 milhões em encargos de processamento de artigos editoriais ou encargos de processamento de artigos.(APC) e mais de US $ 200 milhões de euros para acessar esse conteúdo, ou seja, 340 milhões de euros apenas no processo de edição e distribuição de pesquisas anteriormente financiadas pelo estado alemão.
E por que seria prejudicial para o Estado argentino incentivar e financiar esse modelo de publicação? Primeiro, porque ao comercializar a distribuição, essas grandes cadeias restringem o acesso à pesquisa. Utilizando uma metáfora do futebol, a disputa internacional no campo da comercialização do acesso ao conteúdo científico é semelhante à disputa entre o futebol criptografado e o modelo Football for All., o que equivaleria ao movimento de acesso aberto à informação científica, com grande apoio internacional. Mas o grande problema com o modelo de negócios das cadeias de distribuição de conteúdo científico é que ele concentra e monopoliza muito mais o mercado: é como se, em vez de pagar uma taxa mensal a um provedor local para assistir aos jogos nacionais, tivéssemos que pagar mais de US $ 30 dólares (que é o que sai para baixar um único artigo científico) a um distribuidor internacional para assistir a um único jogo, e que os clubes não recebiam um peso como royalties. Os clubes nacionais seriam des financiados, enquanto o distribuidor internacional aumentaria significativamente seus lucros. (Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.)
Esse modelo de comercialização de acesso tem sido amplamente criticado pela mídia e pela comunidade científica, mesmo nos países mais industrializados. Quase dez anos atrás, quando George Monbiot ironizou no jornal inglês The Guardian : “Quem são os capitalistas mais cruéis do mundo ocidental? Quais práticas monopolistas fazem o Walmart parecer a loja da esquina e Rupert Murdoch um socialista? E ele continuou: "Embora haja muitos candidatos, meu voto não vai para bancos, empresas de petróleo ou seguro de saúde, mas para editoras científicas".
Diante da atual necessidade de circulação irrestrita de informações científicas, em 31 de janeiro, um dia após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar o Covid-19 como uma emergência de saúde pública de interesse internacional, o Wellcome, um dos Os grandes fundos para pesquisa em saúde, que mantêm um forte compromisso com o livre acesso à informação científica, publicaram um apelo público à comunidade científica, revistas e patrocinadores "para garantir que os resultados da pesquisa e os dados relevantes sobre essa epidemia sejam compartilhados de maneira rápida e aberta". E continuou: "Especificamente, estamos comprometidos em trabalhar juntos para ajudar a garantir que todas as publicações de pesquisa revisadas por pares relevantes para a epidemia tenham acesso imediatamente aberto ou estejam disponíveis gratuitamente pelo menos durante a epidemia".
Apesar desse apelo internacional, alguns grandes editores científicos continuaram a comercializar o acesso a pesquisas de grande relevância para a tomada de decisões. A multinacional Sage, por exemplo, abriu o acesso ao material publicado no Covid-19 em 12 de fevereiro , mas outras grandes multinacionais continuaram a comercializá-lo. Dada a gravidade da situação, a Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, uma das entidades públicas americanas mais combativas para o livre acesso à informação científica, reuniu as organizações nacionais de ciência e tecnologia de uma dúzia de países , e as 13 de março de 2020, quando a pandemia já havia atingido 122 países, eles anunciaram o "Iniciativa COVID-19 de Emergência em Saúde Pública ”, na qual pediram especificamente a editores científicos que aceitassem voluntariamente o pedido de acesso imediato a publicações relacionadas ao Covid-19 para disponibilizá-las gratuitamente através do banco de dados PubMed Central (PMC) e outros repositórios públicos que poderiam colaborar com a emergência de saúde pública. Somente em 16 de março, a Elsevier liberou o acesso exclusivo ao conteúdo do Covid-19 e a Wellcome divulgou a lista de mais de 30 editores científicos comprometidos em liberar conteúdo relacionado ao novo vírus.
Embora a comercialização do acesso à pesquisa seja uma das grandes batalhas travadas no campo científico, que o Estado incentive e financie esse modelo de publicação é prejudicial e prejudicial ao próprio país por uma razão mais complexa: porque Começa a moldar os interesses da pesquisa, a relegar e desvalorizar os problemas nacionais, questões inovadoras ou mal trabalhadas, a se alistar em áreas que já são altamente populosas, para garantir alta citação. Dessa forma, a agenda de pesquisa está alinhada com outros interesses. Um proeminente doutor em química em nosso país declarou publicamente que “os periódicos latino-americanos têm baixo impacto porque recebem segundo, terceiro ou quarto artigos de seleção.. O que não podíamos publicar na Nature, tentamos publicar em Elsevier e o que não publicamos, tentamos publicar na Argentina ”. Essas declarações, repletas de ideologia e ausentes de uma análise profunda sobre os processos de estratificação da ciência mundial, são frequentemente ouvidas em "conversas sobre café" que reproduzem e alimentam o senso comum de uma argentinidade que parece ter sido ancorada nas "zonceras argentinas" Por Arturo Jauretche, ou pior, na dicotomia "civilização e barbárie" de meados do século XIX. O sério é que eles são traduzidos em regulamentos. Nos hospitais públicos de nosso país,
A definição da OMS de doenças “negligenciadas” ou “negligenciadas” (como dengue, raiva, leishmaniose, doença de Chagas, entre outras) é um exemplo claro dessa distorção. Embora sejam doenças que "reduzem permanentemente o potencial humano, mantendo mais de um bilhão de pessoas na pobreza e, portanto, representam um enorme ônus econômico para os países endêmicos", como menciona a OMS ", elas recebem pouca atenção e são atrasadas nas prioridades de saúde pública porque os afetados carecem de influência política ". " Eles não causam surtos que capturam a atenção do públicoe a mídia. Eles não viajam de um país para outro, nem afetam os países ricos. ” Em resumo, eles não fazem parte da agenda de pesquisa dos países industrializados e, portanto, não são de interesse da indústria editorial científica, de modo que o sofrimento das pessoas afetadas acaba sendo relegado e tornado invisível pelos próprios países afetados. .
E por que o próprio sistema de avaliação da produção científica está incentivando a comunidade científica a olhar para fora? O matemático Oscar Varsavsky, em seu livro Science, Politics and Scientism , publicado em 1969, já questionava a "dependência cultural que a maioria aceita com orgulho, mesmo acreditando que esteja acima de 'pequenos nacionalismos'". Mais de 50 anos se passaram desde as palavras de Varsavsky e o cenário não apenas não mudou, mas piorou. A dependência científica do modelo de publicação e distribuição comercializado pela indústria editorial levou a mudanças nas agendas nacionais de pesquisa e a subfinanciamento do sistema de publicação e distribuição da produção científica através das revistas publicadas no país.
Mas esse não é um problema limitado à Argentina ou aos países da América Latina. Segundo o Dr. Jie Xu, da Universidade de Wuhan , o governo chinês tem feito grandes esforços para reverter os incentivos para publicar em revistas editadas pela indústria editorial científica, pois levaram ao aumento da produção de artigos de qualidade duvidosa. Pesquisadores em escravos para citar métricas e incentivaram a má conduta investigativa. A crise gerada pelo Covid-19 no sistema de pesquisa chinês colocou o eixo na geração de políticas científicas baseadas nas reais necessidades do país e no privilegio da publicação em revistas científicas chinesas, e não em revistas da indústria editorial.
O grande salto tecnológico que ocorreu na edição científica em nível internacional na última década, não se refletiu na Argentina. A falta de financiamento e incentivos causou uma grande diminuição no número de revistas com capacidade de dialogar com o cenário internacional. Por exemplo, na área de ciências da saúde, das 588 revistas argentinas registradas no diretório Latindex, apenas 7 foram aceitas no PubMed, a biblioteca eletrônica mais relevante no campo das ciências da saúde. E isso não significa que o resto das revistas publique o "quarto" artigo, como o senso comum expressaria. É um processo complexo, semelhante à abertura de importações: a indústria local é des financiada, as capacidades e os conhecimentos que existiam nas décadas anteriores são perdidos e ocorre uma grande desvalorização da produção nacional.
Apostar no fortalecimento de canais de circulação da ciência que estimulem a investigação de problemas nacionais e garantam, por sua vez, a inserção no diálogo internacional ainda é uma dívida pendente. A crise atual deve funcionar como um catalisador para uma mudança necessária, o que exigiria pelo menos duas apostas: por um lado, para áreas que já possuem periódicos científicos, melhore o desenvolvimento de sistemas integrados de publicação eletrônica com a capacidade de dialogar de uma maneira automatizado com sistemas de validação de dados e distribuição de conteúdo, para acelerar a circulação da pesquisa; e, por outro lado, para as áreas com poucas revistas com pouca circulação, projete um sistema de publicação que integre essas áreas em uma única plataforma de publicação.
Diante da crise causada pela pandemia, a autonomia ganhou importância renovada, não apenas nas práticas científicas, mas em vários níveis da economia e da indústria. Mas, para começar a reverter a dependência, precisamos não apenas gerar estruturas ágeis que respondam às necessidades atuais, mas também ter em mente que, como Varsavsky disse, a dependência é "cultural", e é por isso que a grande batalha ocorre em um nível simbólico. de representações, na desconstrução de uma história contaminada por frases construídas em realidades que não nos pertencem.

POR: VIVIANA MARTINOVICH
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